Crônicas

Domingo de chuva

No norte da Itália, tudo bem, com exceção do bunga-bunga do presidente do Conselho de Ministros, Silvio Berlusconi, que suja a imagem do país aqui e no exterior. Tudo muito bem, apesar do terremoto do Japão. Ou da contraofensiva de Kadafi, no norte da África.

Na verdade, a ameixeira que tinha posto suas primeiras flores no jardim dos fundos anda de ramos baixos. O calor dos últimos dias foi um falso anúncio de primavera. Ela soube disso muito tarde. Já tinha vestido suas roupas floridas e as raízes na terra úmida conversavam com os galhos a respeito de seiva, de flores e de vida. Veio o inverno repentino no domingo e tudo ficou em suspensão.


Mas não pense que a ameixeira desanima. As flores que desabrocham são pequenos desafios. Ela sabe que o tempo está do seu lado.E que a vida prosseguirá, a cada ano, em um ciclo de renovação. Por isso os galhos pendem cheios de botões e recomeça a troca de confidências com as raízes.

Ao primeiro sol, mostrará mais uma vez a que veio. Mais no futuro do que no passado. Em cumplicidade com a terra. Com o vento. E com a própria chuva. Até porque é dessa chuva aparentemente adversa que tira a sua força.

Não pense que a ameixeira dos fundos é uma inocente, que veste seu melhor vestido fora de hora. Cai então a chuva forte. Algumas flores caem no chão. Porém, ela não vive de lamentos. Ao contrário, consegue ver a chuva como um espelho onde avalia seus ramos e suas flores.

E eu, como sair em um dia desses? Ficar em casa? Ouvir música, que combina com chuva. E que combina também com um silêncio satisfeito. Um silêncio de se sentir bem dentro da própria pele e dentro da própria casa? Vestindo a melhor roupa, porque ser domingo?

A ameixeira ali embaixo se preocupa com essas inquietudes. E dá de ombros, se ombros tivesse, porque algo lhe diz que a chuva apenas antecipa tempo bom.

Ligo a televisão e vejo as vagas erguendo navios, casas e carros, num passeio impressionante pelo centro da cidade. É a natureza, de novo mostrando que o homem ainda não sabe seu lugar. E que uma cidade inteira pode se transformar em sua sala de jogos.

E aqui de dentro, longe de tudo, a sensação de estar vivo e satisfeito. Mesmo se de vez em quando as sombras também se avolumam e me joga dentro de mim mesmo.
As esperanças se descobrem dentro daquele grande navio, que aparece na televisão, e que trazido pelas vagas invade a praia perto de Tóquio. Mas, de repente, as imagens mudam e nossas esperanças transformam-se nas próprias vagas, abrindo caminho do que temos e do que queremos.

Em um momento desses, só espero que não fiquemos, como aquele automóvel, no teto de um edifício, a nos perguntarmos o que fazemos ali.. Que sejamos fortes como as flores da ameixeira, que é pequena, de galhos magros, mas que desafia o próprio inverno com suas flores.

Por isso, da janela, eu me vejo. E nas imagens dos 8,9 da escola Richter, o olho da televisão também me observa.

O tempo só passa rápido no curto prazo. No longo prazo, ele é lento. Nesse tempo, somos os galhos da ameixeira e os braços do terremoto.

Foto Claudia