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Resposta

Às vezes, no meio de um trabalho, fico absorvido, com medo de perder o foco e assim sigo adiante, como um touro investindo contra algumas sombras. Isso é bom porque o texto vai para frente, mas tem também suas debilidades. Carece, nas releituras, um distanciamento saudável, fazendo com que a mosca dentro do globo de luz se invente novos caminhos para sair do vidro e examinar o de dentro do lado de fora.

Faz um tempo que trabalho em um texto de mais fôlego e sou essa mosca que se bate contra o vidro, sem um caminho para deixar o globo e retornar mais tarde, com o mesmo cuidado, foco e prazer. Quando me dou conta, a caixa do mail está cheia. Hora então de suspender o texto, examinar aquelas velhas contas ainda não pagas, os recados não dados, as gentilezas não retribuídas.

A analogia pode passar a idéia de que quem escreve se compenetra, se interioriza, volta-se para o trabalho de tal forma que nada mais existe. Até pode ser assim, em curtos intervalos, mas os pequenos e os grandes apelos do cotidiano revelam que ninguém é capaz de se alhear completamente do entorno. Claro, muitos criam pequenas torres sobrestantes e conseguem até sobre viver. Eu, não. Não consigo. Nado sempre no meio de meus destroços ou de meus afetos.

O que eu queria mesmo dizer é que hoje, ao dar umas braçadas, me lembrei da tua mensagem. E me dei conta também que ao me compenetrar - essa palavra soa muito estranha – falhei em pequenas gentilezas, para não sermos como a aranha de um poema, que não se move quando a teia estremece - acha que não vale a pena - e só digna a sair quando tem certeza de que é a mosca que bateu e se enredou. 

Os pequenos estremecimentos têm o dom de junto me estremecer, a ponto de descobrir que nem sempre a rede ou a porta são as minhas, o que faz me sentir estranho. Pode parecer esquisito mas é assim que acontece. Pode ser também que tudo faça parte do texto maior a que me referia, um texto dentro do texto, um sonho dentro do sonho, como Zhuangzi atônito, sem saber se sonhava que era uma borboleta ou se era uma borboleta que sonhava ser Zhuangzi.

 

SCaparelli, Ilust. aqui.12.9.2011