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E agora, José?

Se não podemos acabar com a televisão nem com a criança, melhor aprender a conviver com uma e com outra. E aí estaremos de novo no ponto de partida. Porém, depois de um percurso sinuoso, melhor segurar o fôlego e manter a serenidade. A televisão não é um monstro capaz de liquefazer o cérebro das criancinhas. E não é também uma tela mágica neutra, que apenas distrai e diverte. Trata-se, isso sim, de um dispositivo complexo, para uma infância mais complexa ainda.

Mesmo que não possa se condenada ou absolvida definitivamente, seu relacionamento com o telespectador infantil gera algumas inquietações.

A primeira delas é que as crianças pequenas, até os dois anos, devem ser protegidas. Em outras palavras, a televisão faz mal às crianças muito pequenas, prejudicando seu desenvolvimento a curto e longo prazo.

Mesmo depois dos dois anos, as crianças não devem permanecer mais de uma hora diante da televisão. Devem, isso sim, brincar e jogar. O jogo é um aprendizado para a criança se situar no mundo e na sociedade. E também se desenvolver física e mentalmente.

Os estudos mostram, por outro lado, que a violência mostrada pela televisão pode tornar as crianças mais agressivas, banalizando este tipo de comportamento, ou servindo de modelo para a solução de problemas.

Se os pais estão sempre preocupados com a educação de seus filhos, por que não assistir à televisão com as crianças, comentando e discutindo os programas, falando sobre o audiovisual como se tratasse de um jogo de futebol, com suas regras, seus objetivos e seu conteúdo?


Os pais sabem que pessoas reais ou personagens de televisão servem de modelo para seus filhos. Sabem também que esses modelos e seus coadjuvantes podem indiretamente incentivá-las ao consumo de produtos que não estão de acordo com sua idade, como bebida ou cigarros. Atenção, portanto, porque existem efeitos indiretos da televisão sobre as crianças.

E a publicidade? Dependendo da idade, uma criança não consegue distinguir anúncios da programação normal que lhe é destinada. E os anunciantes gostam e incentivam essa confusão, misturando vídeo, animações interativas e publicidade, para atrair a criança para determinado comida e, claro, essa comida não diz respeito às frutas e às verduras, como informa o jornal italiano Corriere della Sera desta semana. Por coincidência, a CNN, na seção Health, dos Estados Unidos, traz um problema análogo, ao divulgar há dois dias um estudo mostrando que personagens dos desenhos animados atraem as crianças para um tipo de comida não saudável.

Estudos deste tipo justificam, por outro lado, as notícias que falam sobre a relação obesidade de crianças e televisão. A princípio, essa relação pode parecer absurda. Televisão? Obesidade? No entanto, se a criança, para se desenvolver, precisa correr, pular e brincar, e se em vez disso, ela passa a maior parte do dia vendo televisão, torna-se obesa por dois motivos: 1) pelo fato de levar uma vida sedentária; 2) e por que enquanto vê televisão consome guloseimas, como balas, batata frita e outros produtos com excesso de gordura. Some-se a isso, de acordo com numerosos estudos, pressão alta por falta de exercícios e incapacidade de se concentrar.

Poderíamos retomar aqui o resultado de outros estudos, nos mais diferentes setores, falando sobre as relações entre a televisão e a infância. Vamos ficar por aqui, porém. Até por ser impossível cobrir todo esse campo de estudo. Para dar uma idéia, apenas neste artigo nos referimos a dois estudos recém realizados. E a cada dia aparecem outros.

Fica uma última reflexão. As crianças estão aí e não podemos nem queremos acabar com elas. A televisão também está aí: não queremos nem podemos acabar com ela. Mas temos o dever de educar essas duas realidades. A das crianças. A da televisão. As crianças por serem vulneráveis. A televisão por ser concessão pública.

Por Sergio Capparelli, ilustração Teclasap