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Ler&Cia

A emoção dos primeiros livros. As dificuldades. O contexto da leitura e da literatura infantil no Brasil: um mercado de bens culturais para crianças com a modernização do país, especialmente nos anos 1970 e 1980. Os professores e a escola como mediadores da transformação da recepção da literatura. As influências em duas direções. Alguns livros atuais. Entrevista concedida a revista Ler&Cia, de Curitiba..

1) Como começou o seu envolvimento com a literatura infantojuvenil?
Os Meninos da Rua da Praia, de 1979, foi meu primeiro livro. Teve boa recepção, principalmente no sul do Brasil. De lá até agora foram vendidas 40 edições. A esse se seguiram outros, principalmente de poesia para crianças. Gosto de lembrar que Os meninos da Rua da Praia foi escrito por ocasião do nascimento de minha filha, quando eu vivia intensa emoção de ser pai. Lívia tem hoje 33 anos. Eu tinha 31 na época.


2) Qual você acha que é o maior desafio de escrever poesia para as crianças? E o principal benefício para ele público?
O maior desafio é conseguir sintonizá-las numa época de grandes mudanças. Mudanças das crianças e do mundo em movimento. O escritor narra a partir de sua visão de adulto sobre o mundo e pretende atingir leitores ainda em suas primeiras experiências. Daí o desafio de trabalhar com sua memória mais sua imaginação para escrever um livro a ser reescrito pelo leitor, também ele com sua história e sua imaginação.


3) Você acha que o brasileiro, de forma geral, é um público “consumidor” de poesia?
O público brasileiro não é um consumidor de poesia. Aliás, no mundo inteiro esse gênero perde importância. No entanto, penso, as crianças no ambiente escolar conseguem impor ritmos aos seus ritmos, danças às suas danças, nonsense ao seu nonsense, viagens às suas viagens. Ainda ficam espantadas quando elas próprias jogam com a linguagem e criam coisas novas. Ou quando põem em palavras o que de doido existe em sua cabeça, apreciando o riso como forma de graça ou ironia, jogando também com o lúdico ou o lírico e explicando o mundo com novas imagens.


4) Como você avalia a produção cultural infantojuvenil no Brasil hoje?
Acho que a literatura infantil dos anos 1970 e 1980 deu um passo gigantesco para a formação dos leitores que temos agora. Os autores e os livros dessa época trouxeram para as crianças personagens que bebiam da cultura nacional, com os problemas da época, de intensa urbanização. Crianças de rua, crianças trabalhadoras mas também as crianças das classes médias urbanas e suas aspirações pularam para dentro dos poemas e das narrativas. Ao lado disso, a escolas soube mediar essa modernização. Não se pode esquecer a importância do poder público e privado. A FNLIJ, Hoechst e Rede Globo, por exemplo, foram pioneiros em aproximar as crianças dos livros, distribuindo pequena biblioteca pelo país. Mais tarde, o governo federal e os governos estaduais adquiriram livros para que as escolas, mas também os estudantes, tivessem livros.


5) Quais foram suas influências nesse tipo de literatura?
Quando era criança, no interior de Minas Gerais, era difícil o acesso ao livro. Minhas primeiras leituras foram de revistas em quadrinhos. E também livros para adultos da biblioteca de minha tia, não propriamente para crianças. Aos 12, 13 anos já lia Dostoievski, mas também Pedro Malasartes, Cronin mas também Max e Moritz, Miguel Strogoff, mas também a vida de Tarzã. Só muito mais tarde fui conhecer Monteiro Lobato.


6) E entre as suas preferências gerais, qual livro leu recentemente que indica aos nossos leitores?
Indico três: Haroun e o mar de histórias, de Salman Rushdie; Sehaypóri, o livro sagrado do povo Saterê-Mawé, de Yaguaré Yamã; e para quem tiver mais idade, Hoje preferia não ter me encontrado, de Herta Müller.

Ilustração: Pratham Books