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Multilinearidade, tempo, voz
e espaço em registro mosaico

Em seu Aspectos do Romance, E. Foster dá o exemplo de uma romancista que tentou abolir o tempo em seus romances e “seu fracasso é instrutivo”: Gertrud Stein. Segundo esse crítico, a autora “esmagou e pulverizou seu relógio e espalhou seus fragmentos pelo mundo, como os membros de Osíris”. Mas o que pretendia Gertrud Stein? Ela esperava libertar a ficção da tirania do tempo e expressar apenas a vida de valores. Mas fracassa.

Ele explica:

“Ela quer abolir todo esse aspecto da estória, essa sequencia cronológica, e meu coração está com ela. Mas não pode fazê-lo sem abolir a sequência entre as frases, o que não é eficaz, a não ser que a ordem das palavras nas frases também seja abolida, implicando isso, por sua vez, na eliminação da ordem das letras e sons nas palavras. E agora ela está sobre o precipício. Nada há para ridicularizar numa experiência como a dela (...) A sequência do tempo não pode ser destruída sem carregar, na sua ruína, tudo o que deveria tomar seu lugar: o romance que expressasse somente valores tornar-se-ia ininteligível, portanto, sem valor” (Foster, 1969, p.31 e 32).


Depois de Gertrud Stein vieram outros. Joyce. Os surrealistas. Os concretistas. Cortázar, Calvino, Pavic. E finalmente, toda uma legião de pós-modernos, que quiseram não só acabar com o tempo mas também com o enredo, com os personagens, com a trama, com o espaço e com a literatura.

 Para mim toda literatura que se diz moderna foge da linearidade. Aliás, essa é uma de suas características.  A maioria dos autores modernos recusa-se a narrativa de princípio meio e fim, adotando um pensamento mosaico. Acho curioso falar em pensamento não linear ou multilinearidade depois de Joyce.

Claro, tem autor prudente, fornecendo ao leitor doses homeopáticas de quebras da tradição. 

Dentro deste contexto, a hipertextualidade digital facilita esse tipo de expressão, já que torna possível

- leitura não-seqüencial;

- interatividade possibilitada pelo meio digital;


- existência de elos de ligação (links) – textuais ou não.

Pouca coisa foi publicada nos últimos dez anos e acredito que A dama de espadas http://www.facom.ufba.br/dama/index.htm , de Marcos Palácios, e Tristessa,  http://www.quattro.com.br/tristessa/nave_main.htm, de um grupo de Curitiba, tenham sido tentativas isoladas no cenário brasileiro.

Há dez anos, eu próprio tinha idéia de que iriam se multiplicar manifestações hiperficcionais, mas isso não aconteceu. Talvez, no futuro, com Kindle e outros suportes eletrônicos a situação mude.

Tenho a intenção de escrever esse tipo de texto, no suporte eletrônico de que falava antes, mas sempre me deparo com dificuldades artísticas e técnicas. A não ser que o autor seja também um homem orquestra, conhecendo a internet em seus aspectos técnicos e seja ao mesmo tempo alguém das artes visuais, tem de trabalhar em equipe. Estou há meses procurando um(a) parceiro (a) para trabalhar em uma narrativa hipertextual intitulada Escadas de Incêndio, mas não consigo. Geralmente dizem: Ah, se é para fazer um blog, tudo bem. Mas multilinearidade hipertextual não é blog. E tem de pagar provedor e fazer o registro do site onde publicará sua obra, renovável a cada mês ou a cada ano.

Seu trabalho será sempre um work in progress. O que aparentemente é algo novo, mas que o torna escravo desses incidentes colaterais. 

No meio impresso, minhas narrativas são mais tradicionais, assim mesmo quebrando a linearidade. Tenho um romance escrito, intitulado Viagem à Calábria, contado em dois planos, que se alternam: o mesmo personagem narra o presente e em seguida linca o que fala com algo acontecido há 50 anos. A narrativa segue essa linha alternada até o fim, existindo quebras internas dentro de cada uma, principalmente na recoleção de lembranças. Mas não se compara ao Calvino citado nas perguntas, ou ao A Dictionary of Maqiao, de Han Shaogong, O Jogo da Amarelinha, de Cortazar, ou ainda Paisagem Pintada com Chá, de Mirolav Pavic.