Crônicas

Café Naonis

O nome do Café era Naomis e o povoado, Vallenoncello. No terraço, entre mesas verdes, uma sinfonia de cabelos brancos e grisalhos. Aquele senhor, por exemplo, que atravessa a rua, já o conhecia. Profissão? Encanador. Encontrou-o nas pagine giale. Tinha entrado desconfiado no apartamento, mas depois embolsara o pagamento do conserto hidráulico. Como pudera observar, todos se conheciam. Cumprimentos. Gestos e palavras soltos nessa manhã fresca depois do calor dos últimos dias.

Quando chegou ao Café, ocupou a mesa ao lado de um rosto familiar, sem que nunca tivessem trocado palavras. O velho havia apoiado a bengala na parede e resmungava diante da xícara de chá.

Logo entraram três mulheres, o que era raro, ocupando a mesa da outra extremidade. Logo depois um vendedor da Eurobevande, com seu bloco eletrônico de pedidos. De onde estava não conseguia saber se as mesas internas do Café nem se as máquinas de jogos de azar funcionavam.

Uma vez ficara longo tempo vendo uma delas ociosa, cujo monitor mostrava Lucky Luke se afastando, enquanto um facínora tirava o revólver do coldre para matá-lo à traição. Mas Lucky Luke, desenhado pelo belga Maurice de Bévère em 1946, se joga de lado e acerta o bandido. Corte rápido. E a cena repete-se, voltando ao ponto inicial, com Lucky Luke se afastando, enquanto um facínora tira o revóver do coldre... e... assim, inedefinidamente, até que apareça um jogador.

Ocupava, portanto, a mesa à esquerda, e bebia um cafré que já estava frio. E examinava as cenas, nessa manhã do Naomis. Passeou os olhos pelo espaço que a Comune de Pordenone tinha reservado para convites de enterros, mas não havia nenhum, apenas agradecimento da familia Stival, pela “affetuosa partecipazione a loro dolore pela la perdita del caro Ottorino”. Neste momento, um jovem cruzou o terraço e afixou um segundo cartaz. Anunciava que Tonon Prima (Marcela) vedova Canale, di anni 87 havia morrido.

No terraço, todos se ergueram para ler o comunicado. Vendo-o a exibir rostos de madame Tussaud, pálidos, quebradiços, lembrou-se dos antigos moradores que conhecia na sua cidade natal, afixando anúncios fúnebres nos troncos das árvores da praça. Deu-se conta de que esse costume havia se diluido, no apagar-se dos anos passados, e os anúncios tinham migrado para a seção de necrologia dos jornais, em textos padronizados, cruzes e estrelas de Davi. As imagens dos mortos, agora, eram como das da vedova Canale, tecidas de lembranças - os melhores momentos de nossas poses antigas.



Por isso Tonon Prima (Marcela) vedova Canale, di anni 87, apoiada no espaldar de uma poltrona parecia subtraída de uma vida passada. Alguém lembrou-se de que a viúva Canale – esse alguem foi o encanador – morava do outro lado daquelas casas, e que estava adoentada nos últimos tempos. Mas não o escutavam, em silêncio compungido diante da
fotografia. Outros, depois que um pequeno grupo se dispersava, erguiam-se dignos, postando-se diante da viúva.

Foi assim que a Gazzeta dello Sport não teve leitores naquela manhã. Mais do que o Giro d’Italia, o aroma do café ou o brilho dos cálices de prosecco, era a morte que despertava o interesse e o recolhimento.

Essa constatação o deixou inquieto. Muitos anos atrás, tinha ido a um café dançante. De uma vitrola no canto do salão o tango serpenteava na voz de um cantor portenho. E de repente sentiu frio. E mal estar. E teve a certeza de que os autômatos que dançavam, emergiam de danças e vidas passadas. Esqueletos, enfim, cobertos de panos.

Agora não havia música, mas homens e mulheres de cabelos brancos ou grisalhos descrevendo a juventude de Tonon Prima (Marcela) vedova Canale. Muito jovem, diziam, discutindo a vida e a morte, como se o jogo da itália na Copa do Mundo fosse completamente sem importância.

Sergio Capparelli