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Televisão. E daí?

Depois de 97 artigos - um por semana em quase dois anos - propomos duas escadas de incêndio para o problema da televisão e criança. E vamos voltar às nossas primeiras premonições. Da mesma forma que em Farenheit 451, filme de 1966, dirigido por François Truffaut, o governo quer se livrar dos livros, que tornam as pessoas infelizes e improdutivas, deveria haver um filme que mostrasse o impacto exato de uma marreta ao espatifar todos os monitores de televisão. Mas não adianta, ninguém deixa que isso aconteça.



Não vem de um filme, mas de um libelo de Jonathan Swift, a segunda escada de incêndio. Ela propõe a extinção das crianças.  Swift propôs acabar com as crianças de rua da Inglaterra vendendo-as na forma de baby-beef empacotado, nos melhores açougues e supermercados, para quem quisesse servi-las em churrascos, assados, cozidos ou em sopas angelicais.

Nestes últimos dois anos essa questão mudou muito pouco. Ainda não se permite pular o muro do vizinho com uma marreta para espatifar sua tevê durante o programa do Faustão. Da mesma forma, a sociedade ainda não aceita crianças servidas no restaurante da esquina, tal como propunha o escritor inglês.

Temos então uma primeira conclusão: no mundo de hoje temos de conviver com a televisão e com as crianças. Tirar da televisão o que há de bom e dar o que é de bom para as crianças.

Vamos e venhamos, imaginar um gol do Messi sem televisão, um filme de caubói que a gente olha, olha, e diz, ahah, que besteira estou vendo, e continua vendo sem se dar conta da imensa besteira inverossímil, ou um programa sobre a vida dos tigres siberianos, ah, isso é bom, é bom demais! E vocês agora pedindo licencinha para dar uma marretada na televisão?

Vamos e venhamos, imaginem um mundo sem crianças. Acho falta de respeito pretender acabar com elas. Pra começar, seria um grande prejuízo, pois o que faríamos com as fábricas de brinquedos, os iogurtes que valem um bifinho, a Barbie, a indústria de livros infantis, as piadas do Joãozinho, as pobres professoras primárias, as mães, meu Deus, o que faríamos com as mães?

Conclusão da conclusão: não acabar com a televisão nem acabar com as crianças.

E tem mais, na próxima semana.

 

Sergio Capparelli ilust. Carla Sonheim