Poemas Indígenas

Poemas indígenas

 

 

Não sou eu
Quem faz surgir os vapores
Não sou eu
Quem faz surgir os vapores
Iá, iá, iá, iá.

É o povo do país da fumaça
que faz surgir os vapores
é o povo do país da fumaça
Iá, iá, iá, iá, iá.




Coisas tão belas

Pára onde está, cobra, pára!
Minha irmã copia suas cores tão belas
Para pintar em um cinto magnífico.
Sua beleza será admirada para sempre,
Mais do que a de todas as outras serpentes. 

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Guaranis


Matando a sede

As gotas de água
De manhã
Na corola das flores
São lágrimas da lua
Choradas durante a noite.
Desses muitos choros
Irrompe a fonte.

Na minha tristeza
Outros matam a sede.

Quechua, 122, da época colonial

 

Por que você voi embora?



Não consigo entender por que você foi embora.
Quando descanso, está junto de mim.
Se me levanto, você também se levanta.
Nos meus sonhos está sempre por perto.
Se os brincos em minhas orelhas tilintam,
Sei que você está mexendo no meu coração.

Asteca, p. 131 sec 16, 17, 18

 

Flor em botão


Brilhas ao vento
como um pirilampo,
e tudo iluminas,
Como se fosse o sol,
minha florzinha em botão.

Vives sempre no ar
como a andorinha.
e se falas, tudo brilha
que nem o canto do sabiá,
minha florzinha em botão!

Guarani, 183 sec 16m 17 e 18

 

 

Caupolican


Quem,
Como o tigre
Cavalga o vento
Com um corpo assombrado?

Se os carvalhos o vêem,
Se as pessoas o avistam,
Com voz tranqüila segredam-se:
Esse é o espírito de Caupolican,
Olhe bem para ele, irmão!


Poema Araucano. Caupolican conhecidochefe. Mortoem 1558. Seusfeitos cantados por Ercilla 1533-1594 no poemaépico Araucana.

 

Terra seca



Tua compaixão é minha agonia
E me faz chorar.
O mais triste de teus filhos,
O mais abandonado de teus servos
Vem a ti em soluços:
Concede o milagre da água,
A dádiva da chuva
À mais infeliz de tuas infelizes criaturas
Àquela, criada por ti mesmo.

Poema Quechua, século XV e XVI, pagina 25

 

Em vão



Como eu devo seguir adiante?
Como flores que morrem?
Um dia o meu nome será Nada?
Não deixarei nada sobre a terra,
Que nem as flores e as canções?
Como meu coração sofre,
Florescendo e vivendo sobre a terra,
Como se tudo fosse em vão.
.

Asteca, p. 77 sec XV e XVI

 

O amado



Onde se escondeu
O meu amado?
Perto da meia noite
Chorei por ele
E a todo instante
Senti sua falta.

Quechua XV e XVI kp. 109

Minha canção



Minha canção
te protege
quando chego
tarde da noite.

Quechua, 110, XVi eXVII

Está na hora


Vamos, mulher,
Acorda: está na hora:
Pelas trilhas, lá fora,
Uivam os cachorros.

Vem vindo a Morte,
Vem vinda a Dança.

Chega a dança?
Então dancemos
Chega a morte
O que fazer?

Oh, que frio!
Oh, que vento!

Ayacucho, p., 132 sec. XVI e XVII

A lama



Uma lama quis um dia
Que seu pelo fosse de ouro,
De ouro como o sol brilhante
Que fosse como as nuvens
Que a aurora desperta,
Que fosse como um espelho,
Para o sol, para a lua,
E para as flores que murcham.

Quéchua, séc. 16, 17 e 18






Canção de guerra dos jívaros



Os que estão na primeira linha:
Deixe-nos falar em voz alta!
Os que estão na segunda linha:
Deixe-nos dizer algumas palavras!
Os que estão na primeira linha:
O que devemos dizer?
Os que estão na segunda linha:
Queremos nos reunir imediatamente!
Os que estão na primeira linha:
Deixe-nos vingar as mortes!
Os que estão na segunda linha:
Amanhã, na hora de dormir, estaremos longe!
Os que estão na primeira linha:
Deixe-nos atacar o inimigo agora!
Os que estão na segunda linha:
Rápido, antes que eles se dêem conta!
Os que estão na primeira linha:
Tudo bem, diz o mais velho, o chefe.
Os que estão na segunda linha:
Deixe-nos agora, jovens, voltaremos logo!
Os que estão na primeira linha:
Rápido, então, bem rápido!
Os que estão na segunda linha:
Nós lutamos!
Os que estão na segunda linha:
Nós matamos muita gente!
Os que estão na primeira linha:
Nós estávamos com pressa de matar!
Os que estão na segunda linha:
Deixe-nos cortar a cabeça do inimigo!
Os que estão na primeira linha:
Queremos levá-las conosco!

Jivaro, século XVIII e XIX



Ardência nos olhos


Estou morrendo, mãe,
Me enterre perto de casa.
E quando fizer tortillas,
Chora por mim, mãe.

E se o motivo das lágrimas
Quiserem saber então,
Responde: é a fumaça que vem
Do fogo aceso no fogão.

Astecas, século XVIII e XIX

Invocação


Aranha,
grande aranha,
Você traz cura,
aranha?

Aranha,
Você veio me picar,
Aranha?

Estou aqui,
Pode vir, Aranha.
Minha canção
Vai ao seu encontro,
Aranha!

Aranha,
Vou embora –
E você vai ficar triste,
Aranha.
Vai se lembrar de mim,
Aranha?

No seu caminho,
As marcas de meus passos,
Me fazem sofrer muito,
Grande aranha,
Majestosa aranha
Iandú.

Índios da Amazônia.
Evocação que Iandu deve fazer a uma aranha venenosa para agradá-la.

Carta à amada




Eu sou mais alto que a palmeira,
Porque meus olhos alcançam suas palmas
E também as aves que ela quer pegar.
Eu sou maiorque o rio Waki,
Porque ouço o longínquo rumor do mar
E porque, de olhos fechados, recrio sua praia muito clara.
Eu tenho mais peito que a leoa de Alamikamba,
Porque minha dor escrita vai mais longe do que seu rugido,
Chegando às mãos de uma menina em Bilwaskarma.


Misquiitos, da Nicaragua

 

 

Guaicuru



Entre as criaturas estão os homems
Que a custo podem se defender.
Não têm as presas afiadas,
Não têm a velocidade do guasu,
Não aprenderam a rastejar como a mboi
Não possuem as garras do jaguar,
Nem os vôos rápidos dos pássaros..
De pé, eles caminham sobre as pernas,
E não conseguem assim passar desapercebidos
Expostos então a mil armadilhas.
Guaicuru vê nos homens sua imagem.
Ele fica triste por serem tão desprotegidos,
Ele então decide ajudá-los.
Nos lábios humanos ele põe o som,
E o som então transforma em palavra
Que desde então os homens são tocados
Pela luz do verbo do senhor da Floresta.
Por ter dado aos homens o som divino
Guaicuru sacrificou-se para sempre.
Tupã condenou –o a ficar para sempre
Roçando as águas do rio sem descanso
Sem jamais poder tocar às margens,


Guarani, século XV e XVI, p. 43
Guaicuru índios do Mato Grosso do Sul, extintos, agora Kadiweus.

 

Se um dia me encontrar sem vida


Eu não quero uma mulher
De pernas finas, que nem serpente.
De medo,
Ela pode me estrangular.

Eu não quero uma mulher
De cabelos muito longos
Que nem uma braçada de tiririca:
Eu posso neles me perder.

E se me achares sem vida,
Eu peço: não chores por mim:
Deixe apenas que o carcaraí
Venha me prantear.

Sim, se me achares sem vida,
Jogue-me no escuro da floresta:
Quero que o tatu se encarregue
Do meu funeral.



(Tupiguarani – Amazônia. Caracari sufixo “i” é diminutivo emTupi-Guarani.
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De Albert Theile. Es tagt die Erde. Indianerdichtung aus dem Südlichen Amerika. Zurich, Der Arche, 1962.



Em vão

A gente vive realmente na terra?
Estamos na terra, mas por pouco tempo.
Ninguém está aqui para sempre.
Se for de jade, se rompe,
Se for de ouro, se funde
Se for plumagem de quetzal, se quebra.
Estamos na terra, mas por pouco tempo.
Ninguém está aqui para sempre.

Nezahualcoyotl, de Texcoco