Poemas Indígenas

Ardência nos olhos

Estou morrendo, mãe,
Me enterre perto de casa.
E quando fizer tortillas,
Chora por mim, mãe.

E se o motivo das lágrimas
Quiserem saber então,
Responde: é a fumaça que vem
Do fogo aceso no chão.

Aztecas, século XVIII e XIX

 

Em vão

Como eu devo seguir adiante?

Como flores que morrem?
Meu nome será Nada um dia?

Não deixarei nada sobre a terra,
Que nem as flores e as canções?

Como meu coração sofre,
Florindo e vivendo sobre a terra,

Como se tudo fosse em vão!




(Azteca, entre o séc. XV e XVI)
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Minha canção


Minha canção
Te protege
Quando chego
Tarde da noite.


(Quéchua, entre o séc. XVI e XVII)
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Amor


Onde se escondeu
O meu amado?
Perto da meia noite
Chorei por ele
E a todo instante
Senti sua falta



(Quéchua, entre o séc. XV e XVI)
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Canção contra a neblina


Não sou eu
Quem faz surgir os vapores
Não sou eu
Quem faz surgir os vapores
Iá, iá, iá, iá.

É o povo do país da fumaça
que faz surgir os vapores
é o povo do país da fumaça
Iá, iá, iá, iá, iá.

Que essa neblina imensa
fuja para o mar
e se afunde
No horizonte.
Iá, iá, iá, iá, iá



(Innuit)
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from The Path on the Rainbow: An Anthology of Songs and Chants from The Indians of North America,
edited by George W. Cronyn, Boni & Liveright, 1918 and 1934




Minha canção

Vamos, mulher,
Acorda: está na hora:
Pelas trilhas, láfora,
Os cães uivam.

Vem vindo a Morte,
Vem vinda a Dança.

Chega a dança?
Então dancemos.
Chega a Morte?
O que fazer?

Oh, que frio!
Oh, que vento!



(Ayacucho, entre o séc. XVI e XVII)
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Nessa terra


Realmente a gente vive nessa terra?
Ninguém está na terra para sempre,
Só está por pouco tempo.
Se for de jade, se rompe,
Se for de ouro, se funde
Se for plumagem de quetzal, se quebra.
Ninguém está na terra para sempre,
Só está por pouco tempo.


(Nezahualcoyotl, de Texcoco)
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O mar imenso


O Imenso Mar
Me põe em movimento,
O Imenso Mar
Me põe à deriva,
Me balança
como alga sobre a pedra
Na corrente do rio.

O arco do céu
Me põe em movimento
E me deixa à deriva.
O vento sopra
Dentro de minha alma.
balança-me,
e eu estremeço de alegria.


Poema inuit de Uvavnuk,, um Inuit de Igloolik, recolhido pela primeira vez por Knud Rasmussen, no início do século.,
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Matando a sede

De manhã
As gotas d´água
Na corola das flores
São lágrimas da lua
Choradas durante a noite.
Desses muitos choros
Irrompe a fonte.
Na minha tristeza
Outros matam a sede.



(Quéchua, época colonial)
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Canção da madrugada


Deixo meu repouso
Ergo-me
Em movimentos
Rápidos
Como o bater de asas do corvo
Ergo-me
Ao encontro do dia.


O meu rosto desaparece
Na obscuridade da noite
Os meus olhos fitam
A luz da madrugada
A luz da madrugada
Que da luz da Aurora
E que clareia o céu.

Canto Innuit in Trésor de la Poésie universelle, Caillois / Lambert,
p.508, Alaska, Groenland.


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