Principal

O Dragão de Wawel

O dragão despertou um dia numa caverna debaixo do Castelo de Wawel, na Polônia, depois de ter dormido durante muitos séculos.
Os moradores do Castelo e os habitantes da cidade ficaram muito preocupados., com o Dragão e com a fome que ele tinha, depois de passar séculos sem comer. Era tanta, a fome, que ele não pensava em mais nada, a não ser encher a barriga.
Um dia ele saiu da caverna, chegou à praça e pediu comida.

 

 

Nem todo mundo ainda o conhecia. Teve gente que o achou engraçadinho, assim, como se fosse de brinquedo.
O Dragão ficou muito irritado. L ançou pela boca uma labareda. Queimou uma carroça. Uma árvore. Uma casa. E uma cegonha, que vinha voando.
“Eu não sou de brinquedo”, disse.
Um homem na janela assistia à cena. Calculou:
“Pesa bem mais que uma tonelada”.
Seu vizinho de janela respondeu:
“Mais de dez. Tenho certeza. E olha só o fogaréu que solta pela boca! Um vulcão em erupção! É preciso ter cuidado com ele”.
“Dar-lhe comida sempre que ele sentir fome”.
Cada um deu seu palpite. Sobre o tamanho e a ferocidade do dragão. Sobre suas escamas. Sobre o fogo que saía de sua boca. E também a fome. Principalmente a dele.


II

Um menino chamado Krac que visitava o Castelo de Wawel com sua escola perguntou à professora.
“O que comem os dragões quando têm fome?”
A professora pensou, pensou e respondeu:
“Difícil saber. Cada um tem gosto diferente. Uns devoram montanhas. Outros, nuvens. Mas a maioria prefere coisas mais simples. Galinhas. Bolo de chocolate. Carne de vaca. Ouvi falar também em dragões vegetarianos que adoram sopa de beterraba.”


III

O Doutor Zajac, que visitava o castelo e conhecia a vida de dragões, ouviu a conversa da professora com Krak e entrou na conversa:
“No norte da Polônia, perto do Mar Báltico, os dragões adoram ensopado de crianças bem educadas.”
Krac sentiu um calafrio e perguntou:
“Por que justamente crianças bem educadas? E os pais, o que dizem os pais sobre essa preferência dos dragões?
“Ninguém sabe dizer o motivo dessa preferência. Quanto a se os pais permitem que sejam devorados, a resposta é não. Não gostam. Mas os Dragões são terríveis”.
“E o que dizem ao Dragão.”
Reclamam, mas não adianta. Então se lamentam:
“A gente cuida dos filhos com tanto carinho, para que sejam bem educados, mas vem um dragão e estraga tudo. Assim não dá!”
Porém, a cidade onde morava Krac, a professora e o Dr. Zajac não estava localizada no norte da Polônia. Estava no sul e ainda nem tinha nome. Apenas o Castelo de Wawel tinha nome. Wawel, claro.
O menino não se conteve.
“Dr. Zajac, Dr. Zajac!”
“Diz, meu filho”.
“O Dragão de Wawel gosta de comer o quê?”
Dr Zajac respondeu:
“O de sempre: vaca, ovelha, bolo de cenoura, abobrinha recheada, bigos, pierogi, sorvete de chocolate, criança pequena, mulher risonha e homem triste.”
Krac ficou de olhos arregalados, mas não acreditou muito no que o Dr. Zajac lhe dizia. Mas... e se fosse verdade?
Verdade ou não, as vacas e as ovelhinhas sumiram do campo. As mulheres não riam mais. Os homens riam, mas sem graça. A fábrica de chocolates faliu. Faltou carne para o estrogonofe. E as crianças passaram a viver escondidas no sótão da escola.
Só sobrou bigos, um tipo de chucrute com carne, e pierogi, um prato de ravióli recheado de repolho, cogumelo ou queijo.


IV

De resto, tudo continuou normal na região. E que normalidade! Porque normal era o Dragão de Wawel sentir fome a cada hora. A terra tremia. A princípio, um leve tremor, sinal de barriga vazia. Depois, um tremor mais forte, sinal que ele buscava algo para comer. E depois quase um terremoto, sinal de que além de faminto, estava nervoso.
O Dragão, de boca aberta, aparecia então na praça. Um bafo terrível! Vrupt. Devorava quem estivesse pela frente. Parecia não ter preferências, mas bem no fundo, diziam, gostava mesmo era de ovelhinhas.
Passou o tempo e a cidade ficou deserta. E nos campos? Os poucos habitantes que restavam nem se lembravam mais do significado de ovelha, vaca ou torta de chocolate.
Poucas crianças, as mais corajosas, ousavam brincar no pátio. Vrupt! Desapareciam na barriga do Dragão.
O rei decidiu então matá-lo.

V

Primeiro mandou os arqueiros. Mais de mil. Em fila, miraram o dragão e enviaram suas flechas.
O dragão começou a rir. Pensou que os guerreiros eram o prato do dia e as flechas, palitos para ele palitar os dentes depois da refeição.
Agarrou as flechas, uma por uma.
Perguntou:
“Por que mandaram os palitos antes da comida?”
Em seguida, avançou sobre a comida, guerreiro por guerreiro, e os comeu. No fim, reclamou do gosto.
“Prefiro com molho de tomate”.
E os guerreiros, que não eram ao molho de tomate, foram devorados ali mesmo.
O rei enviou então a cavalaria.
O Dragão ficou pensativo. Não sabia a diferença entre um lanceiro e um arqueiro, mas sabia muito bem a diferença entre um cavaleiro e um cavalo. Não tinham o mesmo gosto. Carne de cavalo era melhor. Será? Teve uma idéia. Quando os cavaleiros chegaram perto com seus cavalos, lançou uma labareda de fogo e transformou tudo em churrasco. Estavam bem crocantes e assim, assados, com gosto quase igual.
“Quase igual”, disse o dragão, “mas preferia com cebolinha verde”.
Por melhor que fosse a comida, ele sempre punha um defeito.
Do alto do Castelo de Wawel e rei ficou ainda mais aflito. Sem saber o que fazer. Sua filha disse:
“Pai, vou conversar com o Dragão e ver se resolvo esse problema. Ele não pode ser tão ruim assim”.
“Ah, não vai de jeito nenhum, minha filha”, respondeu o pai.”

VI

O pai de Krac era um sapateiro muito conhecido no lugar. Naquele momento, ele chegava do Castelo, onde entregara a encomenda de um par de sapatos para a princesa Vanda. Estava muito preocupado.
Krac perguntou:
“Por que está assim preocupado, pai?”
Ele respondeu:
“Alguém soprou no ouvido do Dragão que a princesa Vanda quer falar com ele. Por sua vez, o Dragão mandou dizer que também queria falar com ela. Mas o pai não deixa. Acha que o Dragão está com más intenções”.
“E o que a gente pode fazer?”
“Eu é que vou saber? Sou um simples sapateiro!”
“Eu já sei o que vamos fazer”, disse Krac, pensando em tudo de ruim que o Dragão tinha feito para a cidade. Foi até o açougue e pediu uma pele de ovelha. Uma pele antiga, porque não existiam mais ovelhas nos campos. O açougueiro perguntou:
“O que vai fazer com ela?”
“Soube que o Dragão é tão faminto, que engole tudo sem mastigar”.
“E o que a pele de ovelha tem a ver com isso?”
Ele explicou sue plano para o açougueiro.

VII

O vendeiro Kapcysnki ofereceu a Krac um saquinho de pimenta vermelha. Dona Vrbskt, do Restaurante Gruszinskie, 250 gramas de sal. Da senhora Klidzio, Krac recebeu150 gramas de pimenta do reino. Da senhora Hlibowicka-Węglarz, 479 gramas de enxofre. E de sua mãe, dois quilos e meio de chucrute bem azedo.
Krac misturou esses ingredientes numa grande bacia. Depois, com uma colher de pau, colocou tudo como recheio dentro da pele de ovelha.
Sua mãe chorou ao vê-lo sair com a ovelha debaixo do braço para oferecer ao Dragão.

VIII

O Dragão de Wawel ouviu as batidas na porta de sua caverna e achou que era da Princesa Vanda.
“Muito cedo”, exclamou, abrindo os armários de comida que os dragões têm no fundo da caverna. Preciso achar alguma coisa para comer antes de encontrar a Princesa Vanda, caso contrário ela não volta hoje para o Castelo!”
Por mais que procurasse, não achou nada. Estava cada vez mais nervoso. Achava que Vanda estivesse apaixonada por ele. Já pensou? Poderia até se casar com ela e se tornar rei de Wawel, quando morresse o rei atual.
Ao chegar na porta da caverna, viu Krac com seu almoço. Melhor Vanda, mas tudo bem. Ah, como gostava de ovelhinha! Pena que tinha só uma. E na barriga, sentiu uma fome enorme, que o comia por dentro. Melhor matar logo a fome antes que ela o matasse.
Pegou a ovelha que lhe estendia Krac e comeu glup. E nem bem comeu, sentiu uma sede enorme, uma sede horrível, como se seu estômago estive pegando fogo.
Desesperado, correu ao Vístula, o rio que corta a cidade, e bebeu água até mais não poder. Tanta, mas tanta, que o rio quase secou. Por fim, o Dragão explodiu. Bum! O estouro foi ouvido até em Varsóvia, a capital do país.
A cidade então recebeu o nome de Kraków, em homenagem a Krac, que a tinha libertado do terrível Dragão de Wawel.

(Sergio Capparelli)