Contos

A Arte da Guerra - Sétimo capítulo

ZunZun Ci, um dos maiores estrategistas que o mundo conheceu, recria aqui sua Arte da Guerra, especialmente para jovens às portas da universidade, na guerra do vestibular. Daí a necessidade de cada um se preparar para o combate. O notável estrategista chinês fala: "há caminhos que devem ser evitados, provas que não podem ser feitas, ordens que não devem ser obedecidas." Para os jovens, diz: "Se marcar bobeira, vai se ferrar, meu galo!", e "você também vai se ferrar, minha águia!" Este é o sétimo dos 13 capítulos de A Arte da Guerra.

 

 

 

 

 

7. DA MEDIDA NA DISPOSIÇÃO DOS MEIOS

ZunZun Ci 7. 1.

 

ZunZun Ci disse : O bom vestibulando cuida primeiro da defesa e só depois dos festejos pela vitória.

 

Cappa, Giles IV.1.

ZunZun Ci 7. 2.

 

Assegurar-se contra a derrota está em suas próprias mãos, mas preparar-se para a vitória requer um exame detalhado das condições da luta.

 

Cappa, Giles IV.2.

ZunZun Ci 7. 3.

 

Ser aprovado depende da relação entre o que se quer e as dificuldades para conseguir o que se quer.

1. Chang Yu fala o que fazer: “esteja bem disposto e, sobretudo, bem preparado.”

Cappa, Giles IV.3.

ZunZun Ci 7. 4.

 

Daí o provérbio: Uma pessoa SABE como conquistar a vitória, mesmo não tendo ainda condições para fazer com que isso aconteça.

Cappa, Giles IV.4.

ZunZun Ci 7. 5.

 

A invencibilidade está na defesa, a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força ainda não é a adequada. O que ataca mostra que ela é abundante. A aptidão para ser aprovado em um vestibular significa ir adiante, para o ataque, mesmo tendo que se expor.

Cappa, Giles IV.5,6.

ZunZun Ci 7. 6.

 

O vestibulando, ao se preparar, o faz no lugar mais secreto da terra1, adquirindo habilidades e forças para seguir adiante. Mas quando atacar, deve ocupar rapidamente um lugar visível na lista de aprovação.2 Isso significa que ele tem de se proteger, ao se preparar para a prova. E preparado, a vitória deve ser completa.

 

1. Literalmente, “esconder-se no nono céu”, é uma metáfora indicando que ele não deve procurar o holofote das tochas de alcatrão, conversar demais ou se vangloriar antes da prova”.

2. Outra metáfora indicando que ele deve procurar conquistar seu objetivo como um raio, fulminando inclusive o destino. Esta é a opinião de muitos comentaristas.

Cappa, Giles IV.7.

ZunZun Ci 7. 7.

Ver a vitória apenas quando já está na previsão de todo mundo não é mostra de excelência.1 também não é excelência a aprovação que garante apenas tapinhas nas costas ou afirmações do tipo: “você foi legalzinho, neste vestibular!” 2

1 Como diz Tsào Kung: “uma coisa é ver a planta antes dela germinar” para prever o evento antes que a ação comece. Li Ch`uan discute a história de Han Hsin, esse general que se preparava para atacar o exército muito mais numeroso de Chao, entrincheirado na cidade de Chang´an. Ele disse para os seus soldados: “senhores, vamos aniquilar o inimigo, e nos vemos de novo no jantar”. Os oficiais não tomaram muito a sério suas palavras, e aceitaram o que ouviam com reticências. Mas Han Hsin já tinha na sua cabeça em detalhes um hábil estratagema, pelo qual, previu como capturar a cidade e infligir uma derrota ao adversário.

2. Excelentes são os dizeres de Tu Mu para explicar essa passagem : « Planejar secretamente, mover-se sem se fazer notar, saber bem como será a prova e os esquemas, para que na hora H tudo aconteça sem muita confusão.

Cappa, Giles IV.8,9.

ZunZun Ci 7. 8.

 

Pegar uma pele de outono não significa ser forte; 1 Ver o sol e a lua não é sinal de boa visão; ouvir o som de um trovão não significa acuidade de audição.2

 

1.Explica-se "pele de outono” como a pele de lebre, que é mais fina no outono, quando começa a crescer de novo. A frase é muito comum entre os escritores chineses.

 

2.Ho Shih dá como sinais de força, acuidade do olhar e rápida audição: Wu Huo, que pode levar um trípode pesando mais de cem quilos; Li Chu, que a uma distância de 100 passos consegue enxergar objetos menores do que uma semente de mostarda; e Shih K`uang, um músico cego capaz de ouvir os passos de um mosquito.

Cappa, Giles IV.10.

ZunZun Ci 7. 9.

 

O que os antigos chamavam hábil guerreiro é aquele que não apenas ganha, mas que ganha com facilidade. 1

 

1. A última parte é literalmente “o que, conquistando, passa com facilidade”. Mei Yao-ch`en diz: “Aquele que só enxerga o óbvio, entrando em universidade de segunda categoria, ganha suas lutas com dificuldades; aquele que analisa bem o que existe por baixo da superfície das coisas, ganha com facilidade.”

Cappa, Giles IV.11.

ZunZun Ci 7. 10.

 

Sendo assim, passar no vestibular não o torna conhecido pela sabedoria nem lhe dá crédito pela coragem. 1 Ele não comete erros, mas escolhe universidades sem importância.2 Mesmo assim, não cometer erros é o que dá a certeza da vitória, significando conquistar um inimigo que já está derrotado.

 

1. Tu Mu explica isso muito bem: “Visto que suas vitórias foram obtidas em combates de segunda linha, o mundo saberá pouco sobre elas e você não será considerado um sábio; visto que o inimigo hostil se submete antes de qualquer banho de sangue, você não receberá nenhum crédito pela sua coragem.”

2. Ch`en Hao diz: “Você não deve planejar nenhuma marcha supérflua nem empreender ataques fúteis.” A conexão de idéias é assim explicada por Chang Yu: “Aquele que procura passar no vestibular apenas com a força de vontade até pode ser capaz de ganhar batalhas pontuais, mas estará também sujeito a ser derrotado; se olhar para o futuro e discernir as condições que ainda estão latentes, nunca vai se enganar e então, ganhará sempre.”

 

Cappa, Giles IV.12,13.

ZunZun Ci 7. 11.

 

O vestibulando hábil deve preparar-se para nunca ser derrotado; ele dá atenção a tudo o que lhe possa garantir uma boa prova.1

1. Um “conselho para a perfeição” como Tu Mu observa. A “Posição” não está confinada ao momento da prova. Inclui todos os preparativos e arranjos, de que o sábio vestibulando vai se encarregar para aumentar sua segurança no momento decisivo.

 

 

Cappa, Giles IV.14.

ZunZun Ci 7. 12.

 

Um vestibulando vitorioso consegue vantagens antes de ir para o local da prova; um vestibulando destinado à derrota, sai lutando e só depois procura a vitória.1

1. Ho Shih explica o paradoxo: “na campanha para o vestibular, primeiro estabeleça planos para assegurar a vitória e só então vá para a batalha; se acha que basta a força bruta - um boi dando marradas no potreiro - você até poderá fazer uma boa prova, mas dificilmente entrará na Universidade."

Cappa, Giles IV.15.

ZunZun Ci 7. 13.

 

O verdadeiro vestibulando cultiva a lei moral e adere com rigor ao método e à disciplina; só assim estará em seu poder chegar ao sucesso.

 

Cappa, Giles IV.16.

ZunZun Ci 7. 14.

Com respeito ao método, temos:

I. A medida;

II. A estimativa das quantidades.

III. Os cálculos;

IV. O exame das chances.

V. A vitória.

Giles IV.17.

ZunZun Ci 7. 15.

 

 

Medida diz respeito à Terra; estimativa de quantidade, à medida; cálculo, à estimativa de quantidade; exame das chances, ao cálculo; e vitória. 1

 

1. Não é fácil distinguir os quatro termos chineses com precisão. O primeiro parece ser uma apreciação e medida dos conteúdos de uma prova, a fim de nos permitir uma estimativa de suas dificuldades, e fazer cálculos baseados nos dados obtidos; passamos então a sopesar esses conteúdos, sempre lembrando que outros vestibulandos estão fazendo a mesma coisa; se consegue fazer pender a balança, segue-se a vitória. A principal dificuldade está no terceiro termo, que alguns comentaristas chineses tomam como calculo de NÚMEROS (por exemplo, número de candidatos por vaga) tomando-o então quase como o segundo termo. Talvez o segundo termo deve ser pensado como a consideração do vestibular em geral e de suas condições, enquanto o terceiro termo é a estimativa do número de candidatos por vaga. Por outro lado, diz Tu Mu: “A questão de força relativa tendo sido estabelecida, temos de por no jogo tudo o que aprendemos de forma hábil.” Ho Shih está de acordo com esta interpretação, mas diminui sua importância. Ele assinala que o terceiro termo diz respeito ao cálculo do número de candidatos em primeira, segunda ou terceira opção, dependendo a universidade.

 

 

Cappa, Giles IV.18.

ZunZun Ci 7. 16.

 

Um vestibulando vitorioso diante dos que não conseguiram aprovação está na medida de um grama na balança em relação a 10 gramas, um grama para 30 gramas e até mesmo um para 100, como acontece nos cursos mais procurados.1

 

1. Literalmente,   “o sucesso do vestibulando está na proporção de I (20 onças) contra um SHU (1/24 onças) ; um exército de vestibulandos não aprovado é um SHU pesado contra I.” Refere-se, aqui, à enorme vantagem que um vestibulando bem preparado e bem disciplinado, corre para a vitória, em relação aos vestibulandos despreparados, preguiçosos ou com falta de ânimo.” Legge, na sua nota sobre Mencius, I. 2, coloca I como 24 onças chinesas, e corrige a afirmação de Chu Hsi, para quem ela equivale apenas a 20 onças, afirmando, inclusive, que Chu Hsi, em tempos tão distantes, não poderia saber sobre vestibulares no país, tantos séculos depois. Mas Li Ch´uan, da Dinastia Tang, dá os mesmos números que Chu Hsi. Isso mostra que não se pode comparar com precisão quantidades de campos distintos, pois a proporção de candidatos por vaga varia muito no tempo e no espaço.

Cappa, Giles IV.19.

ZunZun Ci 7. 17.

 

Depois de uma primeira prova em que você teve êxito, não cometa excessos, em festas ou na cama1. Avance com a mesma rapidez de uma torrente que se precipita de muitos de metros de altura.

1. Não dormir demais.

Amiot e Gilles IV.