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A hora do sono
e o resto da vida

Para muitos, a hora de dormir é o momento da revisão. Do que foi o dia. Do que foi a vida, ou melhor, do que vem sendo esta vida no início de vida. Na hora de dormir a criança se dá conta de tanta coisa acontecida. Sons, cores movimentos. Pessoas, escolas, jogos. E comodamente se inquire sobre o que está por acontecer

A hora de dormir marca, para a criança, pedaços de memória do que aconteceu durante o dia, desde o momento em que saltou da cama pela manhã. Naquele momento, teve a confirmação de um espaço familiar conhecido e a expectativa do espaço novo, de surpresas e de aventuras. Porque, para a criança, ir para a escola não deixa de ser uma aventura. Os rostos não deixam de ser aventura. As ruas? Também promessas de aventuras.

Igualmente a escola, onde começa a maior parte das aventuras. Onde se aprende que existe vida fora de casa Rostos e números, o saber e o saber a espera de ser sabido. Conhecer e se reconhecer nas outras pessoas. Carrossel de sentimentos. Com uma diferença: o carrossel no parque prossegue girando. O carrossel da vida deixa tontas as crianças. Porque enquanto roda – e como roda a vida! – a criança tem de lançar ganchos, como piratas para abordar a vida.

É isso tudo o que a criança recorda na hora de dormir. As tensões dos espaços. Do espaço doméstico para o espaço público. Do quarto para a rua. Da casa para a escola. Das pessoas conhecidas para as menos conhecidas. Construção ininterrupta da realidade diária. Girândolas. De rituais e das normas. De disciplina e de deveres. De urros e de grunhidos.

Na hora de dormir, a criança vai revivendo tudo. E às vezes está sozinha. Muitos pais, porém, participam desse carrossel. Alguns entram nesse mundo de luz e de sombras, de gestos e de cintilações, porque o filho ou a filha voltou para casa. Chegou da aventura, qual Ulisses, equilibrando-se no meio fio da rua ao lado. E esses pequenos Ulisses – meninos ou meninas – precisam de atenção e amor, para conseguirem contar suas histórias.

Precisam de alguém, que lhes indique caminhos. Que lhe fale sobre caminhos. Os percorridos e aqueles que ainda esperam. Às vezes essas conversas vêm no formato de histórias. Iluminadas. Como espelhos em que eles se refletem. Histórias que recontam a aventura de outra forma. Mas com idêntico conteúdo. Medos e monstros. Vôos e quedas. E novos vôos.

Seres fabulosos. Nós. Pelo fato de existirmos.

Por isso a história vivida do dia a dia e as que vão acontecer no futuro também são bonecos de mola tensos, querendo acontecências. Que nem Guimarães Rosa, construindo realidades através da linguagem. Histórias prontas para sair da imaginação, como os bonecos de mola que somos nós. Rápidos. Velozes. Mas que logo desaparecem, sem cicatrizes na paisagem.

Por isso, dizem os estudiosos, mais do que contar histórias tiradas de livros, as crianças precisam é de conversas antes de dormir. Senão o carrossel das acontecências os leva embora, para mundos distantes e irreconhecíveis. Diante dos nossos olhos. Como poderíamos não nos dar conta disso, em um momento tão decisivo?

E as histórias? Ficam nos livros? Claro que não. Não se trata aqui de realidades excludentes. Ou isso ou aquilo. Mas de histórias convergentes. Conversas sobre as histórias do dia e histórias sobre as conversas. Para que nossos filhos entrem calmamente no espaço da noite e, de manhã, abram os olhos maravilhados com tantos acontecimentos desejosos de serem vividos.

 

Sergio Capparelli, ilustração Adolf Dietrich (1877-1957)       Sleeping child