Crônicas

Gerânios de San Vito

O verão chegou de verdade. Dias quentes, tão quentes que nem se aguentam em tantas horas. Muitos dias nem amanhecem, quietos no calendário. Ainda ontem havia uma primavera com flores, que se esticava em ondas desde abril. Primeiro as de amores-perfeitos. Depois, as das glicínias. Ainda há pouco, uma onda maior, de  lavanda, afogou-se em seu próprio nome.

Para minha sacada escolhi gerânios.

Soa estranho dizer “gerânios na sacada”. Expressão de livros. Ou de sacadas das casas do sul Áustria, por onde passei há pouco tempo. Mas os gerânios de Klagenfurt e de Viena também são feitos de palavras. Muitas à deriva. Algumas conseguem chegar aos dicionários, mas para isso têm de lamber páginas e páginas, até encontrarem seu lugar apropriado, entre geral (adj) e gerar (v. t.). Outras se dispersam, esperando o momento de se tornarem flores novamente.

É dessas de que falo.

Distantes, vistos da janela do carro, essas flores vestem um vermelho vivo, apenas imaginado. Só que aos poucos se plantam nas sacadas. De manhã lhes dou água, para que matem a sede e ardência. 

As pessoas, vendo esses gerânios, dizem que eles estão além da imaginação do jardineiro. Não me importo. Digo e repito: o jardineiro sou eu.

Maria Alice voltou ao Brasil há dois dias.  Fiquei para assinar a compra do apartamento em San Vito Al Tagliamento, a 20 quilômetros daqui. Claro, é para esse pequeno apartamento, a alguns passos da praça principal (Piazza del Popolo), que levarei os gerânios transitórios de todas as primaveras. E de todos os livros que li nas sacadas em que me tornei.

Esse apartamento de que falo tem dois quartos. Pensei: um deles será para os hóspedes, que poderão chegar tarde da noite ou na claridade do dia. Na primavera, trarão gerânios. Toda manhã esses visitantes abrirão a janela que dá para o jardim, com olhos de jardineiro. Outro jardineiro.  Respirarão fundo, como eu respiro agora, aspirando aromas. Outros aromas.

Mais tarde iremos à praça praça escolher os caminhos em que  floresceremos.

Só assim terá sentido esses dois meses visitando apartamentos, muitos sem sacadas e sem gerânios. Dois meses pondo em ordem papéis e saúde . Quer dizer, a saúde e os gerânios estão em dia. Eu é que ando alucinado de claridade.

Ando agora com gerânios na lapela. Nem se abriram ainda. E ainda hoje , olhando meu carro no estacionamento, pensei: “preciso marcar o calendário de uma data, quando me sentarei na praça principal de Cracóvia, na Polônia, para  dizer que sou bem assim”.

Em casa, abri o mapa. Novecentos e quarenta e um quilômetros até lá. Dizem que tem gerânios  na beira da estrada. Na praça. No rosto das pessoas. Nos sonhos que nem ainda foram sonhados. E também na memória, dizendo "entre por essa porta dizendo que me adora". Os gerânios, enfim.

Pago pra ver!

Sérgio Capparelli foto Wikpedia e  TERESA & C. sas IL BORGO di SALERNO