Crônicas

E aí, Mao, tudo bem?

Sergio Capparelli

Negócio de Gerânios

Quando recebi o convite, me perguntei sobre o que falar. Meu negócio atual é com gerânios e falar sobre os gerânios de uma pequena cidade do norte da Itália, San Vito al Tagliamento, me levaria a falar de Berlusconi, controle de tevê e deboche. Deixei de lado os gerânios e na busca de um texto decidi utilizar a primeira pessoa, porque a vida é cheia de contradições que a pesquisa desconhece.

Há  43 anos,  o escritor Caio Fernando Abreu deu um tapa na cara de um delegado da Polícia Federal , no Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Esse delegado tinha tido problemas no Rio de Janeiro e fora transferido às pressas para Porto Alegre. Não sei o que motivou a transferência, o certo é que ingressara no teatro, sem vestibular. PLAF PLAF e silêncio. Ali estávamos, emudecidos. Não por causa do tapa em si, mas pelo estalo da bofetada e pelo endereço do destinatário. O Delegado aos poucos desperta do sonho. Como um monstruoso tatu saindo da toca. Ele quer o Caio preso a todo custo. E diz: já matei muito bandido nos morros do Rio. A situação é grave. Vem ver o que está acontecendo, o professor Gerd Bornheim.

A discussão é acalorada. Gerd Bornheim discute com o Delegado . Porque não e porque sim. O filósofo e o tatu. O tatu vocifera, cospe grama verde, repete que já matou muitos e que não vai levar desaforo de um invertido. O filósofo pondera.

2. Muda de idéia, o Delegado,  e vai embora. Mas volta com três brigadianos. Novas e intermináveis negociações na porta do DAD. Mas o Caio não vai preso.

3. No dia seguinte é seqüestrado e torturado em um hotel da Voluntários.

4. De novo o bofete do Caio.


5. Agora, tente me entender. Eu chegava do interior de Minas Gerais, passando por Goiás, onde um oficial do Exército me dispensara do serviço militar por ter um canino pronunciado. Com esses caninos e esses 48 quilos de peso, como vai soltar o pino da granada numa trincheira, se explodir uma guerra mundial?

6. O teatro tinha uma fauna teatral esquisita e eu, caipirão, fazia pose, num colã preto torneando meus cambitos magros, aula de esgrima, touchê, pessoal, vamos começar tudo de novo. Por incrível que pareça, meu professor de esgrima era oficial do Exército.

7. Do teatro ao jornalismo: moderna, a turma depois da minha. Vitrolas na sala de aula, bolero ou rock, até o professor mandar todo mundo se benzer. Diziam que esse era um pessoal dos novos tempos. Gente rebelde, cheia de tiques e de triques.

8. Pena que não trouxe minha máquina fotográfica.

9. Então, faz assim, vai à Casa do Estudante da Riachuelo e diz que fui eu que te mandei. Pede alguma coisa pra comer e um lugar pra dormir. Não pode me dar uma apresentação por escrito? Posso, sim, aqui está. Assinado: Flávio Koutzii, presidente do Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt, da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da UFRGS. Franklin Delano Roosevelt, hun, hun, sei não. Roosevelt não foi aquele presidente norte americano?

10. Porque agora tínhamos invadido o Restaurante Universitário e havia o impasse. Bater em retirada ou enfrentar os terríveis hunos? E havia milhares deles, comandados pelo general Ibá Ilha Huno Moreira e pelo Coronel Pedro Américo Huno Leal, prontos para a invasão. Dois comandos em palpos de aranha. Invadir? Não invadir? Resistir? Não resistir?

11. Eu não queria saber de invasão. Estava tão bom ali no restaurante! Bem quentinho! Acabara de conhecer Alicia, minha namorada maoísta que sonhava com a revolução no campo. Ela tinha vindo de Buenos Aires, diretamente de sua casa na Calle Galileo. Eu andava um pouco frustrado porque sua tesão era pelo livrinho do Mao. A minha, por ela. E desculpem-me a franqueza: 40 anos depois, acordo às vezes de noite cheio de comichões revolucionárias. Se bem que nem eu nem Mao Zedong tínhamos ainda atravessado a nado o rio Yangzi. Rios bem distintos, por certo, o dele e o meu.

12. Abro os olhos e vejo o professor Gerd Bornheim, trabalhando numa livraria em Paris. Sabe, me explica o João Carlos, o Gerd entrou na lista dos expulsos da UFRGS. Agora quer defender o Doutorado de Estado. Mas o orientador descobriu que o Gerd sabe muito mais do que ele. Assim. Eles se tratavam assim. Gerd aqui, Gerd ali. Eu dizia nome e sobrenome, ao me referir a essas pessoas. Parece que estão discutindo esse impasse. Qual impasse? O dele saber mais do que o orientador. E daí? Fala baixo. Viemos falar com o Marco Aurélio Garcia. O DOPS está no calcanhar dele. Pra quê? Matar, ora. E aqui é seguro? Seguríssimo. Esse é o Hotel Cujas, da Madame Savage. Já se hospedaram aqui o Fidel Castro e o Che Guevara.

12.a  E o Frei Tito que se enforcou no Converto de l’Arbesle, nos arredores de Lyon, enlouquecido pelo trauma de 14 meses de interrogatório que sofreu nas mãos da quadrilha do delegado Sérgio Paranhos Fleury, em São Paulo?

13. Eu carregava a bandeira do Rio Grande do Sul com a Alícia ao meu lado, mas em seguida ela ficou mais atrás. Nos meus calcanhares, como se diz. Certamente trazia o Horizonte é Vermelho no bolso interno da jaqueta. Braços que se abraçavam. Festa cívica. Rebeldia. Megafones. Palavras de ordem. Bandeiras e faixas. E eu, orgulhoso, com a bandeira gaúcha. Mais pão, menos canhão. Mais pão, menos canhão. Mais pão...

14. Diante tanta rebeldia, a Ditadura cairia seguramente na próxima esquina. E bem dessa próxima esquina saíram os cavalarianos do Regimento Bento Gonçalves, bloqueando as rotas de fuga. Mas nem eu, nem Alícia, logo atrás, estávamos preocupados com rotas de fuga. Buscávamos, isso sim, rotas de avanço. E assim prosseguimos, mais pão menos canhão. Mais pão, menos canhão.

15. O que tinha feito para merecer tanta felicidade? De soslaio, avistava Alicia rindo, distraída, retocando os lábios. E os brigadianos ajoelhavam-se. A postos. Diante da cena, tentei alertar Alicia mas, com o movimento, ela ficou a descoberto. O tiro foi  no peito. A bala era para mim. Por instantes, ainda sem saber que tinha sido atingido, seu rosto resplandeceu. Tratava-se, porém, da imagem sexy da morte, não dela, Alicia.

16. Quarenta anos depois, vivia em Beijing, trabalhando na Xīnhuá tōngxùnshè, aparelho de propaganda do Partido Comunista. Ia para o trabalho de bicicleta. Só as bicicletas eram agora revolucionárias. Sei de cor as fissuras, as ranhuras, a densidade e a coloração do asfalto da Avenida Longa Paz, que passa pela Cidade Proibida e pela Praça Tianamen. Chamava as sóforas pelo nome e elas me respondiam. E os leões míticos do portão principal me acenavam e eu lhes devolvia o aceno.

17. Para quem não sabe, a Xīnhuá tōngxùnshè foi fundada por Mao Zedong e pelo Exército Vermelho em 1931, na área de Jiangzi. Búfalos e homens transportaram as máquinas impressoras por milhares de quilômetros durante a Longa Marcha rumo a Yan’an. Se estivesse viva, pensava, Alicia estaria orgulhosa de mim, nessa Longa Marcha.

18. Um dia vinha pela Chang’an de bicicleta, ainda indeciso se continuava a orientar dois alunos de Mestrado que deixara na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De repente, gritos. Vultos. Sombras.

Acreditam que eu acabava de atropelar a fila de entrada do Mausoléu do Mao, na calçada de Tianamen?

19. Às vezes, em situações de perigo, reajo de maneira obtusa. Nesse dia, rodopiando no ar, pensei: Maosoléu. O Mao Zedong deve ter inventado esses jazigos extraordinários e, para se homenagear, chamou-os de Maosoléu. E ri no ar, de um jeito que só os passarinhos riem. E ao reabrir os olhos, no chão, ao lado da bicicleta, descobri que os soldados do Exército Popular de Libertação me apontavam fuzis. Tudo rebobinado. Cadê Alícia?

20. Me cercaram, me agarraram e me levaram para o Caveirão deles. Alguém pegou meus documentos. Sorte minha. Dois olhos se abriram deste tamanho quando leram O Horizonte é Vermelho na minha carteira da Xinhua. Mil desculpas e um carro especial. E que eu saudasse Jia Anping, o diretor de redação. Esse foi o único dia em que fui trabalhar de BMW, com bicicleta e tudo. Obrigado, Mao Zedong!

22. E o que fazer para lavar a honra conspurcada na Internet?

23. E agora o curso de Comunicação compartilhava o mesmo espaço institucional que a Biblioteconomia. Impossível que a Reitoria não conseguisse diferenciar Ciência da Informação e Ciência da Comunicação. Era como reunir Biologia e Comércio Internacional, por terem galinha como um denominador comum, já que o biólogo estuda galináceos e o comércio internacional também. Além do mais, o que era um simples curso Jornalismo transformara-se em três: Jornalismo, Publicidade e Relações Públicas. Alguns estudantes estavam consternados com essa proximidade. Primeiro, de jornalistas com publicitários e relações públicas; segundo, do conjunto dessas três subáreas com os estudantes de Ciências da Informação – e mais recentemente Arquivologia e Museologia.

Justificativas em parte sexistas, em parte ideológicas, em parte de poder:


1. Sexistas: Jornalismo era uma profissão dinâmica, masculina, Relações Públicas, auxiliar, feminina, e a antiga imagem das bibliotecárias, de funcionárias. Contradições que prosseguiram durante longo tempo e só retrocederam quando as mulheres tornaram-se maioria nos próprios cursos de Jornalismo.


2. Ideológica: jornalismo, na concepção dos jornalistas de uma época densamente ideologisada, significa denúncia; jornal, instrumento revolucionário; e no contexto de 1968, mudança e revolução. Daí o desprezo pela Publicidade e Relações Públicas, correias e polias do sistema.


3. E o que diziam os estudantes de Biblioteconomia? Os estudantes e as estudantes de Biblioteconomia procuravam ignorar esse delírio sexista e ideológico preconceituoso e faziam avançar metodicamente seu campo de conhecimento. Quando se pensou na criação de um Mestrado, todos se deram conta de que ninguém tinha perna firme para suportar sozinho o desafio. Por isso, para mim, a Fabico não começou em 1968, mas bem mais tarde, em 1995.

28. Eu queria ser escritor e apareceu uma oportunidade. Um grupo revolucionário de Santa Maria patrocinava uma coletânea de contos, de preferência com personagens dispostos a mudar a realidade. Essa agora! Me veio a idéia de um cara criando raízes numa fila do INPS. Será que estava de acordo com o Colóquio de Literatura e Artes em um Estado Comunista, realizado por Mao Zedong em Yan’an, em 42? Fiz essa pergunta ao Carlos Carvalho, na reunião do Clube de Cultura. Ele não respondeu, porque pra ele revolução era com proletários, e não com camponeses de pés sujos. Perguntei: posso pelo menos saber quem financia o livro? Respondeu com gosto: um cara de bem, de Santa Maria, chamado Tarso Genro. O livro saiu tempos depois, com o título Histórias Ordinárias. O Sergius Gonzaga fez crítica da coletânea.


29. A Reitora Wrana Maria Panizzi disse: vai lá, filho, explica tudo para o senhor Delegado. E eu fui. O senhor Delegado queria saber se havia na Fabico uma quadrilha especializada em fraudar dissertações de Mestrado em troca de compensações pecuniárias. Pergunta daqui, pergunta dali, estava bem interessado, esse senhor Delegado. Mas no fim, bem no fim, pareceu comovido. E disse: me desculpa todos essas perguntas inconvenientes. E eu respondi: problema não. Problema não. A vida é assim mesmo!

30. E paf, na cara do Delegado.

31. No fundo, assistindo à cena, a Clarice Lispector dava risada.

32. Mário Quintana, todo simpatia e cavalheirismo, acorreu com um copo de água. Escutei muito bem o que ele disse: bebe essa água aqui, minha Clarice!

33. Dias depois uma professora da Fabico me virou a cara. Um amigo que encontrei na Livraria Cultura me descascou sem mais nem menos. O Editor de Cultura de Zero Hora começou a me dar lição de moral por trás dos seus óculos presunçosos. E a secretária da Câmara Riograndense do Livro me destratou. Comecei a sentir vertigem quando saía. E fiquei ali, morrendo de vergonha por ter um dia gostado de Porto Alegre.


35. E então, cansado de muriçocas, carrapatos e de de cachorros doidos, fui pra São Paulo. De um andar alto, de concreto e vidro, assisti da sacada o pôr do sol de néon, em um telão panorâmico de tevê. Delícia! Tudo clean, se visto do alto. Delírio, se de baixo.

35a Vieram me lembrar que o moç o da denúncia pensara em se matar. Nao disse, mas pensei: que se mate!

36. O Mestrado de Comunicação e de Informação da UFRGS, de 1995? Ah, ajudei a fazer. E o doutorado de 2000? Também ajudei a fazer. E fazendo juntos, nós todos aprendemos a negociar. A abrir janelas de diálogo entre professores de Ciências da Informação e Ciências da Comunicação. Esse trabalho coletivo reduziu o impasse do Poder, ainda separando as duas áreas. Mas, sabemos, bem, a questão do poder sempre volta. E que não se enganem: mesmo se se separassem, cada um levaria consigo suas tensões do poder.

37. E agora uma questão de ordem, companheiro! É permitido amar, ao mesmo tempo, os Beatles e a Revolução Mundial? Ah, a guerra do Vietnã! Também ela era uma feira de bandidos e de mocinhos. Você se lembra da foto do chefe de polícia de Saigon explodindo com um tiro, a cabeça do Vietcong? Foi logo depois da ofensiva do Tet! O que acha disso, Mao? Criação sem destruição? A prática como único critério da verdade? Direito de falar apenas a quem pesquisa? Argh, Mao, você às vezes me confunde!

38. Encontrei Alicia novamente. Dessa vez, no trem Beijing-Lhassa. Outra Alicia, claro, pois Alice. Só que eu vivia ressabiado desde que tinha me casado certa vez com uma mulher que tinha um filho que não tinha. Prudente, utilizei vias indiretas: Alice, me diz uma coisa, é verdade que você gosta do Mao? Levou um susto: que Mao? Fiquei aliviado. E do livrinho, você gosta?

39. Estávamos numa dessas cabines pressurizados do novo trem Beijing –Lhassa. Quarenta e nove horas de viagem, em que a atmosfera interna reproduzia lentamente a rarefação do ar que iríamos encontrar na capital do Tibete, 75% no verão e menos de 50% no inverno.

40. Alíce fechou calmamente o livro – um estudo da ONU, pois trabalhava para a Organização Mundial de Saúde - e leu em voz alta o título da capa: Comparison of altitude effect on Mycobacterium tuberculosis infection between rural and urban communities in Tibet. E acrescentou, com um clarão na voz: gosto mesmo é de minhas crianças do Hospital Geral de Lhassa. Boeeeiiinnng. Com você eu me caso, disse, agora. Ela abriu um sorriso provisório. Por quê? Fui em frente, avermelhando: porque te conheço muito bem e nem imagina há quanto tempo te procuro.

41. Nessa viagem o trem fazia um desvio pela Mongólia, porque a rota Xian, Gansu, Qinghai tinha sido bloqueada por uma tempestade de areia. Pedi-lhe uma caneta e escrevi uma carta às pressas:

42. Ilma. Sra.Profa. Dra. Ida Stumpf. M.D. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS. Porto Alegre.

43. Sei que a vida só se reduz a uma tese - em tese. E que vida de uma tese é muito breve como a vida. E nem por isso a vida e a tese deixam de pulsar no meio da vida.

44. Escrevo livros livres dentro de uma linha. Disponho muros de ardósia em campos teóricos. Confronto-me com o que sei e com o que não sei. Tenho e dou asas. Sou doutor Honoris Causa em Impaciência. Empurro para o primeiro vôo e só depois volto ao ponto de partida.

46. Tenho consciência de que o brilho é breve e de que a vida é placebo.

47. Compreendo que o guiado sempre guia.

48. Reconheço que a posse do saber é inútil porque quem sabe passa e passando passa a posse.

49. E repartir é ter de novo e multiplicado.

50. Por tudo isso, tomo a decisão agora, neste 15 de abril de 2006, de não orientar ninguém mais nessa vida, enquanto o trem cruza o deserto da Mongólia, me deixando certo de nunca ter tido um oriente na minha desorientação.

51. Sendo o que se me oferece para o momento, queira receber, cara Senhora, meus renovados protestos de estima e de consideração. E os meus dois últimos orientandos, que me perdoem, pois cego não serve de guia.


52. Nunca mais orientei ninguém nem pesquisei em Comunicação. É a primeira vez, depois de quase quatro anos, que trato do assunto.

53. Agora, pra dizer a verdade, o pesquisador tinha objetivos gerais e específicos muito claros – disse o primeiro parecerista - e todos eles registrados no nome do solicitante. Mas no fim a bala escreveu um nome diferente.

54. Para o segundo parecerista, a bala, inexplicavelmente desviada, era dirigida ao solicitante, configurando-se, então, um típico caso de pesquisa tendenciosa, com impacto social zero, e desprezada pelo Sistema Qualis por não ser em inglês!

54. E paf na cara do Delegado.

55. Bem feito, disse a Clarice Lispector, dando uma risada do tipo corridinho.

56. Quiseram saber o que eu achava. Não sei, respondi, de cabeça baixa, meu assunto é com gerânios.

57. No Y Bai Jia Yuan – que significa Jardim das Cem Especialidades de Jiaozi – bebi meia garrafa de baijiu – uma cachaça de arroz. Voltei bêbado para casa. Desabou a tempestade e o ônibus começou a buzinar. Eu não conseguia lhe dar passagem por causa da inundação. Continuou buzinando. Merda, mesmo! Parei a bicicleta no meio da Chang’an, apoiei-a calmamente sobre o tripé e fui tirar satisfações. Fiz um grande discurso, o melhor da minha atual vida, em português, observando o rosto estupefato do motorista. Peguei novamente a bicicleta e fui embora, como um eremita do Monte Tai, depois de enfrentar relâmpagos e trovões.

58. Continuei inquieto. Parei na frente do portão central da Cidade Proibida. Me sentei no meio fio.

59. Acho que chorei.

60. Pouco depois, um sobressalto. Alguém me espiava. Certeza. Alguém me espiava. Me viro e dou de cara com Mao Zedong no imenso retrato que ele ocupa, diante da entrada principal. Ponho-me de pé e pergunto: E aí, Mao, tudo bem?

61. Sacana!

62. Não espero pela resposta, porque uma sentinela vem ver o que está acontecendo. Monto na bicicleta... mas onde é minha casa?

63. Coisa de doido: meu negócio é com gerânios.

Sergio Capparelli. 28.10.2010