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Jornada

Já conhecia os fogos de Santelmo, pois andando de ônibus avistava essas pequenas descargas elétricas no campo, em ocasiões de chuvas e trovoadas. Antigamente eram pequenos incêndios espalhados pelo campo aberto. Alguém dizia: é o Fogo de Santelmo. Mas desta vez, em vez de pequeno fogo havia um grande incêndio. E quanto mais aproximava do lugar em que ocorriam as Jornadas literárias, maior era o incêndio, com labaredas projetando-se no céu.

E eu me disse: claro, não se trata de um Fogo de Santelmo, mas de um incêndio descomunal. E assim entrei nas Jornadas Literárias de Passo Fundo.

A 1ª Jornada Literária de Passo Fundo aconteceu em 1981. A segunda, terminou na última sexta-feira. Tudo mudou. Passo Fundo, o Brasil, eu. Na primeira vez havia 750 pessoas discutindo literatura brasileira perto da fronteira com a Argentina. Mário Quintana e Carlos Nejar estavam no primeiro dia. Ciro Martins, Armindo Trevisan, Antonio Carlos Rezende no segundo.

A 14ª Jornada Literária terminou na última semana. Havia 4 mil pessoas, principalmente professores, discutindo literatura, além de 4 mil crianças, conversando com dez escritores que se revezavam em apresentações, respondiam às perguntas, debaixo de um circo de lona. Difícil dizer de memória o nome dos participantes das mesas literárias, pois agora eles vêm às dezenas do Brasil e do Exterior.

O que havia há trinta anos e agora? A resposta é simples. O entusiasmo. Mesmo no silêncio, existe uma força que percorre a todos e que extravasa pelas lonas. Por sinal, existem câmeras capazes de fotografar o calor dos corpos, especialmente as infravermelhas, usadas em campanhas militares. Com binóculos, avistam-se os corpos a partir do calor que ele troca com o meio ambiente. O entusiasmo e a energia das tendas de lona também podem ser observados, mas a olho nu. Do lado de fora, nas apresentações noturnas, um incêndio descomunal eleva-se das tendas, avança entre as nuvens e cai, no dia seguinte, com uma chuva tranqüila, na forma de letras do alfabeto.

Essa chuva de letras afofa a terra, faz germinar as sementes e no primeiro outono depois da jornada os campos estão cobertos de livros. As crianças, milhares de crianças, mas também adultos, participam da colheita. De qualidade. Porque os laboratórios da Jornada funcionam como uma Embrapa da leitura: pesquisam as melhores sementes capazes de acabar com a fome de leitura.

Uma fotografia lembrando a primeira Jornada me mostrava barbudo, afirmando que estava ali para aprender. Mas, agora me perguntei, todos estão ali para aprender. Ninguém vai à jornada para ensinar. Quanto muito, trocam idéias. Às vezes de maneira tranqüila. Às vezes ríspidas. Mas é assim mesmo. Somos todos estreantes na vida, já que existe apenas uma.

Tânia pareceu mudada. E a mudança mostra que com o passar dos anos, ela continua acelerando. Sabe que temos pouco tempo. E enquanto tivermos energia, é melhor reparti-la. Claro que seu nome ficará ligado a um momento especial em Passo Fundo e no Brasil, ou melhor, um movimento especial, em favor da leitura, em um país que entra na voragem digital.

O livro? Bem, o livro...

No último dia, ao baixar das cortinas, Alberto Manguel sente-se incômodo na cadeira, enquanto Kate Wilson explica de que forma a leitura se inscreve nas histórias digitais. Como ela diz, “ technology supports reading and conversations about reading”. Manguel tem outras ideias. Para ele “technology (is) an assault on literature, and, importantly, that the book was something that was above commerce and that technology somehow made it commercial”.

Um bom debate que você pode encontrar AQUI!

 

Sérgio Capparelli. Ilust. aqui.