Artigos

Criança: televisão versus internet?

Aparece uma nova tecnologia e logo começa a maratona comparativa entre o novo e o antigo, descrevendo vantagens e desvantagens de cada um. Algumas dessas comparações são tautológicas. Para ler o jornal, você usa os olhos e para escutar o rádio, os ouvidos.

Grande descoberta! Ler é uma atividade que exige concentração, não podendo, por exemplo, ler e dançar ao mesmo tempo. Mas com o rádio, sim, a música de rádio permite-lhe o prazer de uma canção, enquanto você prepara dançando uma massa à carbonara.

Com a chegada da internet aconteceu a mesma coisa, chegando ao ponto de alguns vaticinarem que a internet iria engolir a televisão e outros o contrário.

Essas comparações podem ter eixos de apreciação diferentes. Por exemplo, no campo da produção: o quanto a produção de conteúdo para a televisão é diferente da produção de conteúdo para a internet? Ou na circulação: uma rede de televisão digital pode oferecer também conteúdos de internet? Ou o Google pode virar televisão? Essas perguntas exigem um exame de características tecnológicas de cada mídia.

 

 

TV

Web

Audiência

Massiva: o telespectador procura geralmente os mesmos canais. Resultado: a tevê centra-se temas gerais, ao gosto médio. A televisão é massiva também quanto ao público brasileiro: pode faltar geladeira em casa, nunca televisão.

Individual: Cada usuário da WEB tem seu próprio interesse e navega em um mar de conteúdo a partir de comandos. Por outro lado, não se pode esquecer que imensas camadas da população vivem excluídas da internet, devido a desajustes econômicos.

Tecnologia

Fraca: Pelos padrões de hoje, a tecnologia da tevê é antiga, oferecendo apenas sons e imagens.

Forte: pelo que a WEB oferece, o campo de suas opções é muito maior, em relação às tecnologias tradicionais.

Principal acesso

"na mesma hora, o mesmo canal” na próxima semana.

Busca e navegação

Experiência

Passiva: você assiste ao que o canal decidiu oferecer.

Ativa: com o comando, você decide aonde quer ir a qualquer momento.

Fluxo

Linear

Hipertextual

Distração

Nenhuma (a não ser que tente fazer algo nos intervalos da publicidade. De uma maneira geral, você segue o programa que escolheu).

Muitas: centenas de janelas estão a sua disposição. Você para, abre seu email caso espere algo importante, busca um jornal da região caso lê sobre determinado país, e assim por diante.

Propriedade

Geralmente grandes empresas de comunicação

Cada navegador pode ser um produtor, descentralizando-se, assim, a produção.

Produção de valores

Alta

Baixa

Contexto socialo

Junto com outras pessoas, geralmente no contexto familiar.

Geralmente sozinho, no quarto ou no escritório.

Construção da marca

Imagens e slogans

Experiência

Boa para a publicidade?

Sim

Não (a não ser em relação à  busca e pequenos anúncios)

 

 

 

   Baseado em Velocity of Media Consumption: TV vs. the Web

 

Esse quadro comparativo leva a algumas observações. Por exemplo: a internet exige um papel ativo da criança, que constrói pessoalmente aquilo que pretende ver, enquanto a audiência da televisão assume uma posição  passiva. Por outro lado, o consumo da internet acontece em um ambiente isolado; o da televisão, em um ambiente geralmente familiar. A publicidade na televisão é mais incisiva sobre a audiência infantil, apesar de medidas assumidas pelas agências de publicidade, com a intenção de proteger a criança. É discutível, porém, nesse quadro, dizer que a linguagem da televisão seja linear, já que a televisão trabalha com imagens; mas é correta a asserção da hipertextualidade da linguagem da WEB, mais próxima das crianças, portanto.

Sergio Capparelli, ilust.Daisyjoe