Poemas Indígenas

Se um dia...

 

Eu não quero uma mulher
De pernas finas, que nem serpente.
De medo,
Ela pode me estrangular.
Eu não quero uma mulher
De cabelos muito longos
Que nem uma braçada de tiririca:
Eu posso neles me perder.

 



E se me achares sem vida,
Eu peço: não chores por mim:
Deixe apenas que o carcará
Venha chorar por mim.

Sim, me achares sem vida,
Jogue-me no escuro da floresta:
Quero que o tatu se encarregue
De meu funeral. 

 

 Guarani, século XV e XVI



Coisas tão belas

Pára onde está, cobra, pára!
Minha irmã copia suas cores tão belas
Para pintar em um cinto magnífico.
Sua beleza será admirada para sempre,
Mais do que a de todas as outras serpentes. 

 

 

Guaicuru índios do Mato Grosso do Sul, extintos, agora Kadiweus



Flor em botão


Brilhas ao vento
como um pirilampo,
e tudo iluminas,
Como se fosse o sol,
minha florzinha em botão.

Vives sempre no ar
como a andorinha.
e se falas, tudo brilha
que nem o canto do sabiá,
minha florzinha em botão! 

 

 Guarani,  sec 16, 17 e 18





Aranha

Aranha,
Vou embora –
E você vai ficar triste,
Aranha.
Vai se lembrar de mim,
Aranha?

No seu caminho,
As marcas de meus passos,
Me fazem sofrer muito,
Grande aranha,
Majestosa aranha
Iandú. 

 

Índios da Amazônia.
Evocação que Iandu deve fazer a uma aranha venenosa para agradá-la.





Entre as criaturas


Entre as criaturas estão os homems
Que a custo podem se defender.
Não têm as presas afiadas,
Não têm a velocidade do guasu,
Não aprenderam a rastejar como a mboi
Não possuem as garras do jaguar,
Nem os vôos rápidos dos pássaros..
De pé, eles caminham sobre as pernas,
E não conseguem assim passar desapercebidos
Expostos então a mil armadilhas.
Guaicuru vê nos homens sua imagem.
Ele fica triste por serem tão desprotegidos,
Ele então decide ajudá-los.
Nos lábios humanos ele põe o som,
E o som então transforma em palavra
Que desde então os homens são tocados
Pela luz do verbo do senhor da Floresta.
Por ter dado aos homens o som divino
Guaicuru sacrificou-se para sempre.
Tupã condenou –o a ficar para sempre
Roçando as águas do rio sem descanso
Sem jamais poder tocar às margens, 

 

 

 Tupi Guarani, Amazônia Carcará, gemeiner Kerl “I” é diminuitivo em Tupi-Guarani.