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A Menina e a Baleia Azul

Sergio Capparelli

Numa pequena aldeia da Ilha de Savu, perto da Austrália e do Timor, vivia Hama Lo e sua mulher. Tinham um filho, Ama Koli Homa, e viviam muito felizes. Alguns anos depois, a mulher de Hama Lo disse ao seu marido: estou grávida novamente. O marido ficou contente, achando que nasceria outro filho para ser companheiro de Ama Koli Homa. Acontece que Hama Lo tinha de fazer uma longa viagem e não podia esperar o nascimento do segundo filho. Chamou sua mulher e disse, muito preocupado, tenho de viajar. Pode ser que não esteja aqui quando nosso filho nascer. Se for homem, tudo bem, é o que mais desejo. Agora, filha, não quero. Se nascer mulher, mata depressa, sem pensar duas vezes.

 

 E nasceu uma menina. Pequena. Esperta. Cabelos pretos. Olhos que se moviam de um lado, do outro, e enfeitiçavam. Logo que nasceu, olhou em volta e sorriu. Havia gostado do mundo em que iria viver.
A mulher de Hama Lo pegou no colo a menina e começou a chorar. Como obedecer seu marido e matar uma filha? Era mãe e por nada no mundo a mataria. E lhe deu o nome de Waratada Lo. Lo, na língua falada na Indonésia, significa homem.
Passou o tempo e o pai de Waratada Lo não tinha voltado. Sua mulher levou-a para a parte superior. Tinha um motivo. Entre os habitantes de Savu, a casa representa o corpo dos antepassados familiares. Como se os troncos de árvores que formam as paredes e as traves e vigas representassem braços e pernas, as janelas, os olhos, e a cobertura de palha, os cabelos. Uma casa, enfim, com coração, veias e artérias.
São construídas em três níveis, essas casas. Na parte mais alta ficam os espíritos. A parte do meio, o quarto, a cozinha e as coisas do dia a dia. E no térreo, os animais. Waratada Lo ficaria então em um lugar bem protegido, sob a proteção dos espíritos dos antepassados que tinham vivido naquele mesmo lugar.
Foi passando o tempo e nada de Hama Lo regressar. Até que um dia ele voltou da longa viagem. Era noite, estava cansado e foi dormir. De madrugada ouviu uma canção muito bonita que vinha do sótão. Uma canção de ninar. Diferente das outras, por certo, pois falava de fios e de cores, como se em vez de cantando, quem cantava estivesse tecendo uma colcha de sons. Pelo menos era isso que escutava das cores da canção.
No dia seguinte, perguntou a sua mulher se ela tinha também ouvido aquela música. Ela ficou assustada, disse que não, não tinha escutado. Talvez ele tivesse confundido a música com o assovio do vento, dobrando as folhas dos coqueiros. Sim, devia ser isso, o vento.
Hama Lo saiu então para o vilarejo, para encontrar seus amigos. Observou, porém, que quando passava as pessoas faziam comentários. Os amigos não conversavam com ele de uma forma natural. Um deles tomou coragem e disse, sua mulher te enganou, Hama Lo. Enganou? Como? Ah, Hama Lo, descubra você mesmo. Porém, ninguém abria a boca para dizer o que estava acontecendo. Até que uma mulher cantou:

Que o galo de cobre cante,
Junto com a galinha de ferro:
Vamos, vamos esconder a menina
No sótão de casa de seu pai.

Homa Lo ficou muito perturbado com o que tinha ouvido. Despediu-se e foi conversar com sua mulher. Ela começou a chorar e disse que não o tinha obedecido e que por nada no mundo iria matar sua própria filha. Homa lo não disse nada, mas no dia seguinte, antes que sua mulher acordasse, mandou Waratara se vestir porque iam passear perto de Lie Geta. Passear, nada! Ele queria era bater a cabeça de sua filha contra as rochas da beira do mar.
O lugar era muito longe e só chegaram quando o sol se punha. As nuvens eram um incêndio só. Homa Lo não falava nada. Apenas olhava as pedras, o mar, e o rosto de sua filha. Waratara sabia que ele iria matá-la. Assim mesmo fingiu que não sabia de suas intenções. Pediu então que ele olhasse o por-do-sol. No momento em que ele se virou, pulou dentro do mar do alto da falésia.
Homa Lo voltou para casa confuso com o que tinha acontecido. Sabia que tinha sido ele a causa da morte de Waratara. Em Savu, onde morava, tinha sido sempre assim. Mulher valia pouco. Quando se casavam, os pais tinham de oferecer um dote à família do noivo. E ao se casar, a filha deixava a casa dos pais e passava a fazer parte da família do marido, cortando todos os laços que existiam antes. Filha era só uma boca para sustentar, até sair de casa e acompanhar o marido.
Acontece que Waratara não morreu. No lugar em que caiu, passava a Baleia Azul com seu filhote. Essa baleia salvou Waratara e decidiu criá-la, até que pudesse viver sozinha.
No início, a Baleia Azul pensou que pudesse criar Waratara como uma baleia. Mas logo foi mudando de idéia. Respirar, por exemplo. Que dificuldade! Porque ela, Baleia Azul, o maior cetáceo do mundo, já pesa sete toneladas ao nascer. E nunca Waratara iria pesar sete toneladas. Baleia com 35 quilos? Nem pensar! Além disso, diferente dos peixes, a Baleia Azul respirava pelos pulmões, com um sistema respiratório que lhe permitia ficar imersa durante até 20 minutos. Depois emergia e soltava o ar quente do pulmão a até oito metros de altura. De longe, parecia um esguicho de água. Mas não era água, assim como de esguicho. Era o ar quente de seus pulmões, que ao saírem pelo orifício que ela tinha na cabeça, se condensava, formando gotículas.
Waratara não conseguia respirar assim. Baleia Azul desistiu, tudo bem, continue como é, Waratara. E Waratara continuou Waratara. E nem por isso a Baleia Azul deixou de gostar dela, do mesmo jeito e cada vez mais. Esquisito, não é? Do mesmo jeito e cada vez mais. Um jeito igual de gostar, mas mais intenso.
Quando tinha tempo livre, a Baleia Azul mostrava a Waratara o que as baleias sabem fazer. Por exemplo: cantar debaixo d’água, com o som percorrendo grandes distâncias, para se comunicar com outras baleias. A Baleia Azul mostrou a Waratara como conseguia ser tão grande e ao mesmo tempo tão graciosa. Mas com que Waratara se admirava mais era o fato da Baleia Azul ser assim tão boa, com um coração enorme, de 430 quilos.

Waratara decidiu retribuir à Baleia Azul mostrando o que ela sabia fazer. Começou com um arroz chamado Nasi Goreng, muito gostoso, e tanto a baleia como o filhote passaram a pedir-lhe pelo amor de Deus que fizesse uma panela bem grande desse arroz, pelo menos uma vez por semana. Outra coisa que Waratara preparou para a Baleia Azul foi um delicioso doce de mandioca.
Já me ofereceram mandioca cozida e mandioquinha frita. Doce de mandioca, não!, disse a Baleia Azul, deliciada com o doce de mandioca.
Alguns tubarões nadarilhos que passavam por perto ouviram a conversa e se aproximaram, pedindo um pedaço, um pedacinho só, do doce de mandioca. As baleias não deram. E explicaram, esses tubarões comem doce de mandioca e depois vão pedir também um pedacinho da cozinheira, um pedacinho de baleia e de filhote de baleia. Uns atrevidos, melhor não dar! Os tubarões foram embora frustrados e desde então se tornaram inimigos declarados das baleias.
Foi, porém, a colcha que Waratara teceu para a baleia e seu filhote que mais chamou a atenção. Para fazer essa colcha, Waratara teve de passar uns dias fora do Oceano, pois pretendia tecer com uma técnica e materiais especiais. Ela mesmo foi coletar raízes, folhas, cascas e outros materiais corantes. O resultado foi uma colcha enorme. Belíssima. Difícil foi dobrá-la depois de pronta, porque o mar estava muito agitado.
A terceira coisa que deixou o mundo do mar deslumbrado foi Waratada dançar em cima de um casco vazio de tartaruga. Milhares de peixes, polvos, mães d’água, caranguejos, lagostas, estrelas do mar, medusas e até gaivotas assistiram à dança. Nunca tinham visto algo, (como dizer?) tão comovente, tão sensível e tão maravilhoso. No oceano, entre a Austrália e o Timor, até hoje se fala dessa dança, que ficou conhecida como Dança de Waratara.
Alem disso, sua arte de tecer colchas foi reconhecida como uma das mais belas, tanto no oceano quanto na terra, chegando sua fama até Savu e a muitas outras ilhas. As mulheres logo adotaram seu jeito de tingir os fios e tecer, aperfeiçoando as cores e a padronagem.
Nem tudo, porém, foi um mar de rosas no Mar de Savu. A baleia gostava cada vez mais de Waratara e esse amor provocava ciúmes no seu filhote. E nem imagina um filhote de baleia manhoso! Dava rabanada em outros peixes. Reclamava que tinha muita água no oceano e que era uma água molhada. Que a noite devia trocar o lugar do dia. Que os orifícios por que respirava estavam entupidos. Que... bom, muito mais coisas, porque um filhote manhoso de baleia ninguém aguenta, nem mesmo os coqueiros e os cômoros da praia. Um dia, furioso, o filhote da Baleia Azul destratou Waratara. Disse: você está destruindo minha vida, viu? Antes de você chegar, eu tinha uma mãe só para mim. Sua intrometida! Acha que é fácil dividir uma mãe? Além do mais, esse oceano é muito pequeno para nós dois.
Waratara procurou entender como em um oceano, grande como o amor de uma mãe, não coubesse mais uma filha. Ficou magoada. E triste, também. Uma hora lembrou-se das canções de ninar que sua mãe de Savu cantava para ela dormir, no sótão, antes da volta do pai. Quis chorar mas não chorou. Para que chorar agora? Não iria ajudá-la em nada. Choraria mais tarde, se tivesse tempo. Primeiro teria de imaginar um jeito de sair daquela situação.
De manhã, com o mar adormecido, Waratada foi conversar com a Baleia Azul. Explicou o que estava acontecendo. Eu sei disso, disse a Baleia Azul, mas logo encontraremos uma solução. Meu filhote anda muito birrento, chora à toa e tem ciúmes. Mas é porque seu pai foi harpoado por uma baleeira e morreu.. Sabe, Waratada, às vezes acordo de noite e passo horas pensando no que fazer. Tenho esperança que dentro de uns tempos meu filhinho vai compreender.
Mas tem outra coisa, disse Waratada. O quê, me diz? Ultimamente ando pensando muito em minha outra mãe. Ela gostava muito de mim. E eu, dela. Vivo sozinha do amor de minha mãe. E ela, também sozinha do meu amor. É sempre difícil viver sozinha de alguma coisa. Parece uma saudade, mas é mais do que saudade. Ou melhor, é uma saudade diferente. Por isso quero voltar à ilha.
Você é que decide, disse a Baleia Azul. É uma moça feita, agora. Que sabe o que quer.
Sei disso, respondeu Wanatara, e sorriu. A Baleia Azul olhou para sua filha. De que ela estava sorrindo? A seguir, compreendeu: sua filha sorria porque estava feliz pelo longo percurso percorrido, desde o desespero, lançando-se no mar, até aquele momento, disposta a enfrentar o mundo. De fato, Wanatara partiu pouco depois, levando uma terceira colcha, a colcha que ela tinha tecido para si mesma.
Ao se despedir da Baleia Azul, disse, de noite, quando estiver longe, na ilha, me cobrirei com essa colcha, com fios trançados por mim mesma, com as cores que desejei e que me deixam feliz. Assim poderei dormir quentinha, com o mesmo calor desse mar. E quando pensar na minha mãe das águas, a Baleia Azul, terei certeza de que teci uma colcha de amor, com espumas do mar.
Falou assim e partiu.
Ao chegar em casa, ninguém a reconheceu. Nem mesmo sua mãe. Claro, sua mãe sentiu que havia algo muito estranho com aquela moça, mas não sabia ainda dizer o que fosse. Porém, logo Wanatara desdobrou a colcha, compreendeu tudo. Era a mesma colcha que ela havia sonhado depois que a filha tinha saído de casa. Tinha os mesmos fios. As mesmas cores. Os mesmos desenhos. Não disse nada, porém, pois temia a reação de Hama Lo.
Como o vilarejo era muito pequeno, a casa de Homa Lo logo se encheu de gente. Todos queriam conhecer aquela belíssima moça, que chegava de repente, de tão longe. Os homens discutiram em voz alta quem iria se casar com ela. Outros se perguntavam quem seriam seus pais, pensando no dote que receberiam. E quando Homa Lo disse a Waratada que se ela quisesse poderia morar por uns tempos no sótão, porque sua casa era muito grande, Waratada estremeceu. E recusou educadamente. Diante disso, Homa lo perguntou, mas você não veio à nossa aldeia para ficar?
Sim, respondeu Wanatara, para ficar. Mas não quero fazer tudo às pressas. E olhando para os homens, acrescentou que pensava em se casar, mas antes queria organizar uma cooperativa de mulheres, no trabalho de tecelagem, para encher a região de novos fios e dessas novas cores.

San Vito al Tagliamento, 14 de Março de 2012.