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Histórias para crianças

Na hora de dormir, de olhos fechados, ouvia uma história. A voz vinha de longe, de dentro da própria história. Com seus medos e seus pavores E a voz vinha também de perto, de fora da história, cheia de amor e de segurança. A cada noite, um capítulo igual. A menor mudança era corrigida, pois o menino que ouvia estava atento. E cada noite, um capítulo diferente, no contar do pai e da mãe. E também de uma entonação quase imperceptível. Uma melodia lenta, como lento era o cansaço depois de um dia de trabalho.

Às vezes nem livro existia. Os monstros eram os do dia a dia mesmo. Podiam sair de um livro e se vestir de canção. Neste caso, história recontada pela música, que se abria em paisagens sonoras amplas, cada vez mais amplas, até que a voz de nossa mãe nos envolvia. Ou então, com a casa cheia, a história vinha na voz dos que estavam na sala. Sobre uma tia distante com ferida na perna, sobre um Tio Antônio que viveria 100 anos, sobre uma sobrinha que se perdeu.

Muitos dizem que a televisão acabou com o hábito dos pais contarem histórias para os seus filhos. Mas me diz, foi a televisão mesmo? E me diz também: todos os pais e mães tinham o hábito de contar histórias para seus filhos na hora de dormir?

Essas lembranças inventadas, como estrutura de consolação, até podem ter acontecido, mas em parte. Mesmo sem respostas claras, somos tentados a rejeitar paraísos que não existem, mas que consolam. E em vez de torcer o pescoço para inventar o passado, melhor olhar de frente para o sol.

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Um estudo  feito na Inglaterra revela que 75% dos pais não contam mais histórias para seus filhos. A pesquisa, que envolveu 2.000 pais, revelou também que entre os que se dispõem a contar histórias para os filhos, 3% são pais e 89% mães.

As razões dadas pelos pais que não contam histórias para os filhos são muitas. Os pais (89%) dizem que têm outros compromissos depois do trabalho ou então estão muito cansados para ler histórias de um livro. As mães dizem que tinham o hábito de ler para os seus filhos, mas 89% delas não fazem isso porque além de trabalhar fora, têm de limpar a casa, e 49% citam sobre outros trabalhos domésticos. E assim os filhos ficam na internet, nos videogames ou na televisão.

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A pesquisa feita na Inglaterra trata, então, de uma mudança de hábitos sociais naquele país. Ela foi feita no ano passado pelo The Telegraph. Não importa, porém, se foi feita ontem ou hoje. Serve apenas de gancho para se discutir por que tanta gente sabe o que significa excesso de televisão na vida de uma criança e assim mesmo permite que isso aconteça. No nosso caso, os resultados referem-se à Inglaterra, mas certamente a tendência, as explicações e as desculpas dos pais ocorreriam igualmente em outros países.

Isso demonstra mais uma vez que a televisão só pode ser analisada dentro de um contexto familiar, econômico, cultural e assim por diante. As famílias pesquisadas têm consciência de que criança que vê televisão enfrentará problemas. Mas o que fazer? A criança está chorando, quer ter atenção, não tem com quem brincar. E a mãe e o pai? Acreditam que uma criança pode ou tem de esperar. Quando se dão conta... ah, olha ali a criança dormindo com a televisão ligada!


Sérgio Capparelli - Ilustração: Storytime