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Televisão ou internet?

Em um dos primeiro artigos de nossa discussão sobre televisão e infância, falamos sobre o a opção redutora “ou isto ou aquilo”, numa lógica excludente. De acordo com essa lógica, a televisão deveria desaparecer, para não prejudicar o livro e a leitura. E dissemos também que essa apreensão causada pelas novas tecnologias esteve sempre presente na história da humanidade. Exemplo disso foi o intenso debate na sociedade grega quando apareceu a nova tecnologia da escrita.

Tinham medo, os gregos, de que a tecnologia da escrita acabasse com o tipo de comunicação oral predominante, onde a memória ocupava um lugar de honra. Há não muito tempo, essa discussão ressurgiu, quando se falou que a invenção da fotografia mataria a pintura. Ou que o cinema anularia a fotografia. Que a televisão era a oração fúnebre do cinema. E agora que a internet substituirá a televisão.

De que maneira a internet estaria substituindo a televisão? De uma maneira simples: levando as crianças a dar as costas à televisão, substituindo-a pela internet. Ou melhor, no nosso caso, as crianças já preferem passar a maior parte do tempo navegando na rede, e não assistindo Disney ou Bob Esponja. Mas como? Simples. Basta ver alguns títulos da imprensa brasileira. “Crianças brasileiras são campeãs de acesso à internet”. Ou “Todas as crianças preferem a internet à TV”.

No primeiro título, uma pesquisa internacional da Nickelodeon afirma que os internautas brasileiros, de 8 a 14 anos, são os que mais tempo ficam navegando na rede, enquanto o segundo texto diz que crianças e jovens, de 6 a 18 anos, já passam mais tempo na internet do que na televisão, 30% deles mais de duas horas por dia.

Quem lê o artigo surpreende-se: as crianças brasileiras passam apenas uma média diária de duas horas na frente da televisão? Por que motivo a pesquisa fala “pouco mais de duas horas”? A explicação: a pesquisa fala de crianças espanholas. Mas o fato de serem crianças espanholas não invalida a discussão. Como não invalida a discussão saber que a pesquisa não foi realizada nesta semana ou neste mês. Nossa intenção não é medir comparativamente o tempo de exposição da criança brasileira ou espanhola à televisão e à internet, mas dizer que é falso o binômio ou televisão ou internet. Um não tem de desaparecer, mesmo que o segundo torne-se protagonista.

Queremos apenas ressaltar que o aparecimento de cada novo meio traz na sua esteira medo e pavor, com setores da sociedade conclamando por proteção, especialmente a das crianças. Não estão totalmente errados e buscar a todo custo essa proteção. Mas não estão também totalmente certos. Se os tambores de advertências soam na praça pública, algumas vezes são tambores de uma moral ultrapassada. Outras vezes são tambores legítimos, buscando a proteção de grupos vulneráveis da sociedade. Essas razões não justificam, porém, uma lógica excludente, a partir dos alarmes: 

Assédio sexual na internet. Guia para a proteção das crianças , Ameaças on-line afetam crianças e adolescentes, Assédio sexual na internet, Hospital da USP atenderá crianças e jovens viciados em internet, Campanha contra a Pedofilia na Internet, Pedófilo geria site para criançasna internet, Ethevaldo Siqueira

Substitua-se internet por televisão e teremos títulos similares àqueles que apareceram no advento da televisão. Mas o que a televisão tem de diferente da internet, em se tratando da criança? É o que veremos no próximo artigo.

 

 


Sérgio Capparelli, ilust. Boing Boing